segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Medo Como Campanha


Assistindo à entrevista com a candidata à reeleição, Dilma Rousseff, esta manhã no programa televisivo Bom Dia Brasil, mobilizou-me profundamente sua prática, evidente nesta campanha à presidência da República, de instilar o medo por meio de seu discurso, direcionado unicamente à candidata Marina Silva.

Que os publicitários e ideólogos da campanha petista se utilizem do medo, para se contraporem à esperança, é uma triste ironia sobre a qual não me vale a pena demorar.

Pois bem, ouvi falas em quase nada propositivas, limitadas a retrospecções inexatas e transmitindo informações ameaçadoras, de cunho meramente afetivo, que apontam para os riscos "da outra".

À estratégia política aí vigente cabe uma análise psicossocial: a Psicologia dispõe de dados relevantes de pesquisas acerca da tendência de se conferir exatidão a afirmações que nos soam familiares, mesmo que sejam falsas.

A repetição é um fator fundamental para a aprendizagem. Já se tornou clichê repetir a frase atribuída a Paul Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, de que "uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade". Nem é preciso repetir tanto. Em termos experimentais, é válido afirmar que uma opinião repetida 10 vezes por alguém tem a capacidade de levar seu ouvinte a supor que ela é tão amplamente aceita socialmente quanto se fosse expressa por dez pessoas diferentes.

Desde o início desta campanha eleitoral temos testemunhado a utilização reiterada dessa estratégia, por determinados agentes partidários e seus avatares nas redes sociais, a fim de propagarem, por exemplo, que o candidato Aécio Neves seria usuário de drogas.

À última pessoa que me afirmou isso eu indaguei: "Como você sabe disso? Você conhece ele"? Claro que a resposta foi negativa, então questionei-a porque disse aquilo com tamanha certeza (ou arrogância de verdade): "Porque muita gente na internet diz"...

"Pois é, querido, quem garante que isso é verdade, só porque muita gente diz? Não repita só porque lhe passaram esse dado". Lamentável que adultos bem informados ainda se permitam tais manipulações...

Quanto à candidata Marina, alvo mais recente das fofocas e falácias, além do que comentei no início do artigo, incomoda-me terrivelmente não apenas as "certezas" verbalizadas de que ela "é" fundamentalista, mas principalmente a correlação duvidosa entre suas crenças religiosas e seu posicionamento político (evangélica, logo, preconceituosa/contra os direitos humanos).

Após tantos presidentes católicos neste país, e alguns que se afirmaram ateus mas tiveram posicionamentos favoráveis a determinadas entidades religiosas, para as quais "feliz é a nação cujo deus é o Senhor", é preocupante que se faça esse tipo de conclusão estereotipada quanto à religiosidade de um dirigente.

Neste ano eleitoral, o medo é a campanha com maior financiamento e com o apoio das maiores coligações, e não as propostas. Que esteja funcionando, não surpreende. Necessário é que, a bem da decisão informada dos eleitores, quando às urnas, que os argumentos sejam bem fundamentados, em dados verificáveis, e não em comentários e imagens reproduzidas na internet, e compartilhados com comentários jocosos ou agressivos.

2 comentários:

  1. "As pessoas não estão apenas, como diz o ditado, caindo na trapaça... Elas desejam um engano... Elas percebem que suas vidas seriam totalmente intoleráveis tão logo deixassem de se apegar a satisfações que, na verdade, não existem" (Theodor W. Adorno).

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  2. MEDO - Vídeo da campanha do PSDB na época da primeira campanha de Lula:
    http://www.youtube.com/watch?v=DEeNSkXn5mY

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