sexta-feira, 24 de outubro de 2014

BAFÃO: Tem Gente de Esquerda que Vota em Aécio

Comício de Aécio Neves (PSDB/PSB/PPS) no Rio de Janeiro (Ricardo Moraes/Reuters)


BAFÃO: TEM GENTE DE ESQUERDA QUE VOTA EM AÉCIO
Jaqueline Gomes de Jesus e Marcio Sales Saraiva

Plantamos minas, no campo por onde nós mesmos caminhamos, quando relacionamos diretamente identidades sociais a identidades políticas. Tal prática, por ser tomada como natural, tem sido comumente assumida em diferentes falas de repúdio, ao nível pessoal, àquelas e àqueles que ousam verbalizar a possibilidade de voto para o candidato Aécio Neves (PSDB/PSB/PPS).

Tornou-se comum, especialmente nas redes sociais, uma associação direta entre ser integrante de um determinado grupo social historicamente discriminado e apoiar a reeleição da presidenta Dilma Rousseff (PT), como se a mesma tivesse o "monopólio da virtude" do combate a todas as formas de discriminação e opressão. Nada mais estranho do que o que parece natural ou é "vendido" como se natural fosse:

"Mulher/pobre/negro/gay/trans vota em Dilma, se não vota, é de direita"!

Defendem esse ponto de vista (discriminados votam em Dilma), não somente os partidários da candidata petista, mas igualmente os que temem mudanças na política social ora posta. Quando não lembramos dos que, por diversas razões pessoais, repudiam a imagem de Aécio como representante de grupos dominantes (homem/rico/branco/heterossexual/cisgênero).

É um posicionamento político curioso, não só pelo seu grau de passionalidade, mas principalmente tendo em vista que nem todas as demandas da sociedade civil foram transformadas, pelo governo atual (que completa doze anos no poder), em políticas públicas efetivas; ou se o foram, estão marcadas por um viés de classe com alcance limitado para as especificidades identitárias.

Nem tudo é o paraíso pintado pela campanha eleitoral do status quo.

Exemplo é que as ações afirmativas para inclusão da população negra no ensino superior começaram como resultado da luta autônoma dos movimentos sociais e de setores progressistas das universidades públicas, e não como fruto de ação efetiva do Poder Executivo. O Governo não "deu de boa vontade" tal ou qual política pública, como faz crer sua propaganda. As políticas públicas nascem da interação entre diversos agentes, dentro e fora das instituições do Estado.

Nós temos agora uma política de cotas com recorte social e étnico, além de um projeto para o acesso de negras e negros no serviço público, porém são necessários mais recursos financeiros para que as políticas de inclusão racial se ampliem e sem uma economia estabilizada e em processo de crescimento, as políticas sociais e de inclusão podem sofrer cortes e contingenciamentos, como já vimos nesses doze anos de gestão do PT e seus aliados.

E não só isso. Falta uma aplicação mais rica das potencialidades das ações afirmativas, que não podem ser reduzidas a cotas. É possível que o Governo adote incentivos ou renúncias fiscais para organizações que incluam e valorizam pessoas oriundas de grupos sociais discriminados.

Se formos destacar mais uma dimensão da diversidade, o da diversidade sexual e de gênero, podemos lembrar que foram realizadas as Conferências Nacionais de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT), porém os planos e programas delas decorrentes estão longe de serem plenamente instituídos. A coisa toda fica no papel.

Isso sem considerar que, durante o atual governo, a distribuição de kits educacionais para enfrentamento da homo-lesbo-bi-transfobia foi cancelada, após pressão de grupos político-religiosos conservadores que dão sustentação para a coalizão governista no Congresso: "não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais", afirmou a presidenta Dilma.

O Governo que aqui está provou ser refém dos grupos religiosos conservadores, ainda que acene, aqui e acolá, com palavras e papéis. Nada sai do lugar.

Sim. Como "minorias", ou melhor, "grupos oprimidos", participamos dos processos decisórios mais ativamente do que em outros tempos, mas essa participação está se transformando em inclusão efetiva de nossas demandas nas políticas públicas? Em geral, não.

Sendo assim, por que esta paixão dilmista?

O que efetivamente foi feito? Esquecemos todas as críticas que temos acumulado contra a aliança do PT com o fundamentalismo no Congresso, a qual permitiu, inclusive, que Feliciano presidisse a Comissão de Direitos Humanos?

Não vai aqui nenhum antipetismo reacionário, mas um chamado para uma compreensão razoável e serena da distância entre a gestão dilmista e as nossas demandas como grupos sociais subalternizados.

Por outro lado, nós nos propusemos a refletir sobre um espectro mais espinhoso deste período eleitoral: a suposta incoerência de eleitores de esquerda que se permitem investir nesse candidato da "direita". Seria absurdo?

Pensamos que não. Caso não saiba, há pessoas que legitimamente se identificam com a esquerda (e quem somos nós para questionar o direito inalienável de auto-identificação das pessoas?), priorizando o combate as desigualdades e assimetrias, e estas pessoas escolhem democrática e livremente votar no Aécio Neves.

O candidato do PSDB está mais identificado com propostas econômicas liberais, mas tem o apoio de Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), do Partido Popular Socialista (PPS) e de diversos acadêmicos e ativistas sociais que não podem ser identificados como sendo militantes de direita.

Além do mais, a candidatura do PT não pode se colocar autoritariamente como detentora do monopólio da identidade política de esquerda! Se nós não aceitamos que alguém seja definido por outro como negro(a)/mulher/transexual, tampouco que alguém se imponha como o(a) negro(a)/mulher/transexual "de verdade", porque nos curvaríamos à ideia de que este ou aquele é direitista, ou nos autorrotularíamos como "esquerdistas verdadeiros"?

E mais. Vamos combinar que os doze anos de Governo provaram que o PT fez uma inflexão para o centro, adotando receitas típicas de governos liberais, tais como privatizações/concessões. Só não vê quem não quer.

A possibilidade de vitória de Aécio Neves no segundo turno aponta para a necessidade das esquerdas se articularem, junto aos partidos que darão sustentação a este novo governo, para preservarmos os avanços sociais da última década; reorganizarmos a economia com respeito ao meio ambiente e pautarmos as demandas dos setores sociais historicamente discriminados e injustiçados.

Se Dilma sair vitoriosa, será necessário mantermos a luta pela retomada do crescimento econômico com sustentabilidade; combater a epidemia de corrupção e "arrancar" (isso mesmo) políticas públicas para grupos e setores sociais subalternizados.

Nos dois casos, teremos de enfrentar os conservadores e moralistas que já estão na aliança do PT e os que desejam entrar no Governo Aécio.

O trabalho e a luta nos esperam, enquanto, para quem não sabe, o deputado federal Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, articula-se, com o apoio da bancada da intolerância, com vistas a se tornar presidente da Câmara dos Deputados.

Vamos voltar para as ruas ou ficar nos acusando pelas redes sociais?

Não se engane: existia um Brasil antes do PT, e 500 anos de exploração não mudam só com votos e candidatos.

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