quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Xica Manicongo: Vestígio de uma Civilização

Figura: Kimpa Vita (Dona Beatriz), Santa do Congo, 1684-1706. Artista: Raita Steyn. Fonte: http://kineticslive.com/2012/10/29/kimpa-vita-dona-beatriz-1684-1706-saint-of-congo


XICA MANICONGO: Vestígio de uma Civilização
Jaqueline Gomes de Jesus
Professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Pós-Doutora pela Escola Superior de Ciências Sociais e História da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV). Docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (ProfHistória/UFRRJ)


Em comparação com as principais religiões monoteístas (Judaísmo, Catolicismo e Islamismo), as de matriz africana apresentam uma abertura maior à diversidade sexual e de gênero (mesmo que, no correr dos últimos séculos, as lideranças e seguidores destas tenham aderido fortemente ao pensamento LGBTfóbico prevalente na tradição judaico-cristã, e que foi espalhado pelos continentes afetados pelo imperialismo colonial).

Isso é facilmente atestado por quem conhece alguns itãs (ensinamentos da cultura iorubá) e lendas que se referem aos Orixás, Inquices e Voduns, mas também quando se pesquisa registros historiográficos da presença aberta dos chamados "affeminados" em terreiros, desde o Século XIX. Isto é um reflexo das culturas de onde os ramos principais destas religiões advieram, principalmente dos povos Banto, Iorubá, Jeje e Nagô. Em contraponto ao senso comum, considero importante ressaltar que as pessoas LGBTs são anteriores às religiões.

Xica Manicongo foi denunciada como sodomita durante a primeira visitação da Inquisição a Salvador, em 1591, por manter o hábito quimbanda, de sua terra natal, de prender para a frente o nó do pano da costa que a cobria, o que a evidenciava, na cultura soteropolitana de então, que ela era praticante do "pecado nefando".

Ao tornar-se enredo da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti em 2025, personificando uma pombagira, ela enuncia uma certa "modernidade" da presença trans, do ponto-de-vista dos nossos contemporâneos, porém é, sobretudo, uma memória, ou melhor, um vestígio, no sentido arqueológico mesmo, de uma civilização africana em transição, o Reino do Congo do século XVI.

Reconhecida como quimbanda, ela fazia parte de um grupo que denominaríamos, em nosso linguajar de hoje, como formado por gays afeminados, travestis ou mulheres trans; tratado pejorativamente, pelos cristãos europeus, como formado por feiticeiros sodomitas; porém em Angola e no Congo, o termo "invertido", sentido literal da sua denominação, era atribuído a agentes religiosos, conhecidos como nganga marinda, pessoas capazes de se comunicarem com o mundo espiritual, em acordo com a tradição, e não contra ela. Daí o sentido positivo da inversão na lógica banto. As invasões portuguesas, que contava, com as "milícias de Cristo", combateram ferozmente essa e outras tradições não-europeias, sendo a face religiosa da guerra colonialista.

O julgamento do corpo de Xica evidencia os primeiros impactos desse embate transcontinental, que teve resistências, de maneiras particulares em cada território. Processos de dominação social, política e econômica aprofundaram a forma católica de vida, no que viria ser institucionalizado como Brasil, e igualmente entre os governantes do Reino do Congo, os Manicongos, que no século XVII já adotavam nomes católicos (outrora reservados apenas aos escravizados pelos lusitanos). Um exemplo da aculturação complexa é o de Kimpa Vita, Dona Beatriz, conhecida como a Santa do Congo, que se batizou como cristã, entretanto desenvolveu uma teologia afrocentrada e combatia os portugueses.

Fundado em 1995, o Quimbanda-Dudu, grupo gay negro da Bahia, adotou "Francisco Manicongo" como seu patrono (o nome social Xica e o tratamento feminino dado a ela é uma formulação posterior, iniciado pelo movimento social trans, em especial o carioca), destacando sua condição de "homossexual que recusava-se a vestir roupa de homem". A reconstrução da história, para nós que nunca fomos vistas como protagonistas dela, geralmente não é uma genealogia, em um sentido higienizado ou uniforme, que nos foi ensinada hegemonicamente, colocando uma certa imagem de masculinidade em seu núcleo. Remontar as vidas de mulheres, pessoas negras, indígenas e LGBTs demanda uma forma transdisciplinar de fazer história, uma outra História, associando diferentes métodos, a partir de uma perspectiva feminista, antirracista e antiLGBTfóbica, muito semelhante, ao meu ver, a como montamos mosaicos, colando os cacos de que dispomos, a fim de compôr uma cena.


Indicações de leitura:

JESUS, Jaqueline Gomes de. XICA MANICONGO: A transgeneridade toma a palavra. Revista Docência e Cibercultura, v. 3, n. 1, pp. 250–260, 2019. https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/article/view/41817

MARIA, Salete. XICA MANICONGO: 1ª travesti do Brasil, Bahia - 1591. Salvador: Editora Grupo Gay da Bahia, 2025.

MOTT, Luiz. HOMOSSEXUAIS DA BAHIA. Dicionário biográfico: Séculos XVI-XIX. Salvador: Editora Grupo Gay da Bahia, 1999.

QUIMBANDA DUDU. BOLETIM DO QUIMBANDA-DUDU, n. 2. Salvador: Editora do Grupo Gay da Bahia, 2000.


domingo, 8 de dezembro de 2024

Psicologia das massas: contexto e desafios brasileiros


"Um dos eventos relacionados à Primavera Árabe, a revolta na Síria que se tornou uma guerra civil, acentuou-se ao longo do segundo semestre de 2012 como conflito internacional, com repercussões diretas particularmente nos vizinhos Líbano e Turquia, decorrentes da afluência de refugiados sírios para esses países, e se configurou em episódios como o do sequestro de sírios em território libanês e o de ataques militares a comunidades turcas próximas à fronteira com a Síria. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, até meados de agosto, pelo menos 200.000 cidadãos sírios se refugiaram em outros países, fugindo da guerra" (JESUS, 2013, p. 495).

Jesus, J. G. de. (2013). Psicologia das massas: contexto e desafios brasileiros. Psicologia & Sociedade, 25(3), 493–503. https://doi.org/10.1590/S0102-71822013000300003



 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Direitos Humanos e Saúde: Refletindo sobre as dores e esperanças

Eu contribuo com o capítulo "Saúde Mental LGBTI+: Questão de direitos humanos" (pp. 207-218):

Direitos Humanos e Saúde: Refletindo sobre as dores e esperanças


Direitos humanos e saúde: refletindo sobres as dores e esperanças / Maria Helena Barros de Oliveira, Luiz Carlos Fadel de Vasconcellos, Marcos Besserman Vianna (­organização). – 1a ed. – São Paulo: Hucitec, 2024. – 326 p.; 23 cm. – (Coleção Saúde em Debate, v. 359).


sexta-feira, 14 de junho de 2024

12 regras para homens cis interessados ​​em namorar mulheres trans e travestis

 

Cena do seriado Bebê Rena, da NETFLIX, com os atores Richard Gadd e Nava Mau.


12 regras para homens cis interessados ​​em namorar mulheres trans e travestis

Autora: Nicky Alcenat

Tradução livre e adaptação do original publicado em 27 de outubro de 2023 na página: https://www.gq.com/story/twelve-rules-for-cis-men-interested-in-dating-trans-women


Namorar uma mulher trans ou travesti não é tão diferente de namorar qualquer outra mulher. Mas ainda há algumas coisas que você deve saber.


À medida que a sociedade se aproxima da democracia real, as mulheres trans vivem – e namoram – mais livremente do que nunca. É muito provável que você encontre uma delas em uma noite qualquer, da mesma forma que faria com qualquer outra mulher.

Ainda assim, as regras para namorar uma garota trans podem ser um pouco mais complicadas do que para um relacionamento com garotas cis. Claro, provavelmente todas nós, mulheres trans e travestis, queremos ser cortejadas - e algumas podem querer ir logo para a cama, mas eu não, não no primeiro encontro. Mas há outros fatores em jogo. Da mesma forma que você tentaria aprender os meandros da cultura de alguém, você desejará respeitar uma identidade de gênero que você não vivencia.

Felizmente para você, vasculhei meus contatos – me comuniquei com antigos pretendentes, ex-namorados, meus amigos e algumas outras mulheres trans – para compilar uma lista de dicas para namorar uma de nós.

Embora a experiência trans não seja igual para todas, e não haja duas mulheres exatamente iguais, a maioria das pessoas com quem conversei concordou que essas dicas foram fundamentais para um relacionamento com uma senhora ou senhorita com experiência trans.

1. Não esconda suas intenções, não seja um homem das sombras.

Não engane uma mulher em nenhum relacionamento – e tenha mais certeza sobre suas intenções com garotas trans. Muitas de nós já tivemos a experiência de namorar homens que querem nos esconder, ou fomos transformadas em fantasmas porque um homem simplesmente não consegue lidar com suas próprias limitações para namorar abertamente uma mulher trans. É melhor informar suas intenções.

Se você está procurando algo casual, diga. Mas se você não está pronto para ser aberto sobre seu relacionamento, então provavelmente nem deveria começar a procurar uma mulher trans.

2. Seu fetiche não é um sinal verde.

Só porque você assiste pornô trans (4ª categoria mais pesquisada no PornHub, e a que mais cresce no Brasil) não significa que você esteja capacitado para namorar uma mulher trans. Toda mulher trans ou travesti tem uma história sobre um "caçador" que quis "experimentar" com ela.

3. Esteja preparado para o fato de que outras pessoas podem não entender seu relacionamento.

É semelhante a outros relacionamentos não tradicionais. A intolerância ainda está ao nosso redor. Saiba também que, se você já namorou apenas mulheres cis, inevitavelmente se deparará com perguntas sobre sua própria sexualidade. Se o relacionamento valer a pena, você precisará se preparar mentalmente para conversas com amigos, colegas e familiares.

4. Eduque-se sobre a cultura trans.

Embora eu tenha certeza de que a maioria das mulheres trans está aberta a educar seus parceiros cis sobre muitas coisas, elas não vão querer explicar tudo a um homem adulto. Você deve saber o básico: sobre LGBTs, sim, mas também sobre pessoas trans famosas, importantes, e as leis mais recentes que afetam a vida das mulheres trans e travestis.

5. Lembre que não há muita representação na mídia sobre um relacionamento como o seu.

Algumas pessoas podem ter crescido assistindo novelas e pensado: “Quero um relacionamento como esse”. Esse tipo de ficção não é tão comum no caso de relacionamentos com mulheres trans.

6. Não se concentre muito na transexualidade dela - mas também entenda que ela é diferente das mulheres cis com as quais você namorou.

Reforce a feminilidade dela. Não presuma que ela se identifica com interesses masculinos apenas porque foi identificada como homem quando nasceu. Mas você também deve entender que ela tem uma experiência de vida diferente da das meninas cisgêneras.

Isso não significa necessariamente que ela não queira falar sobre sua vida antes da transição, mas é algo que você deve deixá-la abordar em seus próprios termos.

7. Saiba que existem diferentes formas de dar prazer a uma mulher trans.

Sobre sexo é importante saber, antes de ser íntimo, se ela é passiva, ativa ou versátil, se gosta de sexo oral. Não faça suposições com base na identidade ou na aparência dela. A próxima coisa que você vai querer conversar, quando houver abertura, é se ela fez, se não fez ou se deseja ou não fazer cirurgia de redesignação genital (conhecida popularmente pelo termo incorreto de cirurgia de "mudança de sexo").

Independentemente de cirurgias, ela tem próstata, assim como você, e portanto estimulação anal é uma boa chave para proporcionar orgasmos para ela. Ou seja, tal qual como ocorre quando se transa com uma garota cis, você quer fazer o que mais agrada a ela, e a comunicação é fundamental.

8. Lide com sua própria masculinidade.

A transfobia é predominante na nossa sociedade, e a segurança de uma mulher trans é sempre algo que ela deve considerar. Sim, você pode encontrar mulheres trans e travestis rudes ou agressivas.

Como mulher trans, posso dizer que não há nada mais reconfortante do que um homem que consegue ficar ao nosso lado com convicção. Isso não significa que você deva brigar toda hora, mas deve ser homem o suficiente para defender sua mulher.

9. Conheça a família escolhida.

Ir para casa para conhecer os pais é um rito de passagem estabelecido para os relacionamentos. Igualmente importante – ou em muitos casos mais ainda – é conhecer a família escolhida. Este é um conceito comum na comunidade LGBT: famílias escolhidas são as pessoas que conhecem muito bem e afirmam a identidade de gênero da mulher trans com a qual você se relaciona. A aprovação deles é algo que você deveria desejar.

10. Entenda que você cometerá erros.

Em todos os relacionamentos, você conhece as mágoas da pessoa com a qual você se relaciona, então não seja duro consigo mesmo ao aprender o que fazer e o que não fazer. Há uma linha básica que você deseja superar - lembrar os pronomes com os quais ela gosta de ser tratada é muito importante e fácil de saber a respeito.

11. Saiba que a vida de cada mulher trans é diferente.

Algumas mulheres têm histórias saudáveis ​​e fáceis de assumir, e lembranças felizes relacionadas à sua vida antes da transição. Outros não. É importante que você descubra o nível de conforto dela ao discutir coisas como essa, mas você não pode forçá-la a falar a respeito. À medida que a intimidade cresce entre vocês dois, será mais fácil para ela ser honesta e aberta sobre a vida que a levou a ser quem ela é agora.

12. Esteja preparado para o fato de que, se vocês namorarem por um bom tempo, a ideia de ter filhos pode ser recorrente.

Adoção é sempre uma opção, claro. Mas para mulheres trans e travestis, congelar esperma antes de se submeterem a uma cirurgia de redesignação genital, e a barriga de aluguel são alternativas cada vez mais utilizadas.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Como Eu Não Dancei - Trailer


https://youtu.be/U-jF5eLdoiI


Lançamento do filme HOJE, 13 de dezembro, quarta-feira, às 19 horas!

Aqui no YouTube da Jaqueline: youtu.be/cye5csbSJnI


Eu não vim falar sobre coisas fáceis de serem ditas.

Vi coisas belas serem desfeitas e surgirem.

Cresci em uma capital da República na qual existiam frondosas árvores típicas, mas sobre as quais logo se ergueram condomínios fechados.

A vida me pressionou a olhar além do horizonte, para dentro de mim. Um dia a criança negra que morava na periferia de Brasília se reconheceu como uma mulher trans. Era exatamente quem eu era.

Eu me lembro de uma professora que uma vez, jocosamente, chamou-me de “negão”, muito antes de eu entender a minha identidade de gênero. Aquilo me pareceu tão inapropriado... Não só pelo propósito cinicamente homofóbico dela, naquele momento, mas porque, para mim, o “ão” não me cabia. Hoje compreendo perfeitamente a negona que eu era, sem me ver nem ser vista corretamente.

Aos "Nãos" que me deram na cara eu revidei com "Sins" para outras pessoas excluídas.

Este filme é uma auto-investigação de como eu me movimentei pelo o que a sociedade esperava de mim desde a infância, a menina invisível de outrora, representada pela minha sobrinha de cinco anos, que trans-formou-se na Jaqueline de agora.

Na vida eu escolhi dançar canções que eu mesma compus, e neste filme eu danço a música que foi composta a partir do que eu projetei de mim mesma para o mundo.


Filme inspirado no livro "Como Eu Não Dancei", de Jaqueline Gomes de Jesus (N-1 Edições, 2020).


FICHA TÉCNICA

Direção: Gau Saraiva e Jaqueline Gomes de Jesus

Elenco: Jaqueline Gomes de Jesus e Morgana Alice Silva de Jesus

Roteiro: Jaqueline Gomes de Jesus

Direção de Fotografia e Edição: Gau Saraiva

Música: Ária Rita

Coreografia: Dodi Leal

Produção: Isaac Joshua Rebelo

Assistente de Direção: Victor Ono

Direção de Arte: Vicente Tchalian

Assistentes de produção: Jéssica Rayssa Silva de Jesus, Luana Nayara da Cunha Sottomaior e Maria Luzia Alves de Freitas

Figuração: Gizélio Gomes de Jesus e Tiago Gomes de Jesus

Curadoria de fotos de arquivo: Claudiney Silvestre Alves


Agradecimentos às tias Marilene e Meire, à prima Carla Larissa e à Meg.


In Memoriam de minha mãe, Maria Marly da Cunha Gomes, minha vó Teresinha Pinto da Cunha, meu avô Jonas Pinto da Cunha, meu tio José Márcio da Cunha, o Zé Mácio, e minha tia Marli Teresa da Cunha, a Marlizinha.


Filme gravado em Brasília/DF.

Brasil, 13 de dezembro de 2023.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

COMO EU NÃO DANCEI


Eu não vim falar sobre coisas fáceis de serem ditas.

Vi coisas belas serem desfeitas e surgirem.

Cresci em uma capital da República na qual existiam frondosas árvores típicas, mas sobre as quais logo se ergueram condomínios fechados.

A vida me pressionou a olhar além do horizonte, para dentro de mim. Um dia a criança negra que morava na periferia de Brasília se reconheceu como uma mulher trans. Era exatamente quem eu era.

Eu me lembro de uma professora que uma vez, jocosamente, chamou-me de “negão”, muito antes de eu entender a minha identidade de gênero. Aquilo me pareceu tão inapropriado... Não só pelo propósito cinicamente homofóbico dela, naquele momento, mas porque, para mim, o “ão” não me cabia. Hoje compreendo perfeitamente a negona que eu era, sem me ver nem ser vista corretamente.

Aos "Nãos" que me deram na cara eu revidei com "Sins" para outras pessoas excluídas.


Este filme é uma auto-investigação de como eu me movimentei pelo o que a sociedade esperava de mim desde a infância, a menina invisível de outrora, representada pela minha sobrinha de cinco anos, que trans-formou-se na Jaqueline de agora.

Na vida eu escolhi dançar canções que eu mesma compus, e neste filme eu danço a música que foi composta a partir do que eu projetei de mim mesma para o mundo.


Lançamento em 13 de dezembro, quarta-feira, 19 horas

No YouTube da Jaqueline: youtu.be/cye5csbSJnI


Filme inspirado no livro "Como Eu Não Dancei", de Jaqueline Gomes de Jesus (N-1 Edições, 2020).


FICHA TÉCNICA

Direção: Gau Saraiva e Jaqueline Gomes de Jesus

Elenco: Jaqueline Gomes de Jesus e Morgana Alice Silva de Jesus

Roteiro: Jaqueline Gomes de Jesus

Direção de Fotografia e Edição: Gau Saraiva

Música: Ária Rita

Coreografia: Dodi Leal

Produção: Isaac Joshua Rebelo

Assistente de Direção: Victor Ono

Direção de Arte: Vicente Tchalian

Assistentes de produção: Jéssica Rayssa Silva de Jesus, Luana Nayara da Cunha Sottomaior e Maria Luzia Alves de Freitas

Figuração: Gizélio Gomes de Jesus e Tiago Gomes de Jesus

Curadoria de fotos de arquivo: Claudiney Silvestre Alves


Agradecimentos às tias Marilene e Meire, à prima Carla Larissa e à Meg.

In Memoriam de minha mãe, Maria Marly da Cunha Gomes, minha vó Teresinha Pinto da Cunha, meu avô Jonas Pinto da Cunha, meu tio José Márcio da Cunha, o Zé Mácio, e minha tia Marli Teresa da Cunha, a Marlizinha.

Filme gravado em Brasília/DF.

Brasil, 13 de dezembro de 2023.



domingo, 8 de outubro de 2023

SMILE Brasil - Saúde Mental LGBTI+


A Pesquisa SMILE Brasil é um estudo sobre saúde mental e bem-estar entre pessoas LGBTI+ realizado no Brasil pela Universidade Duke (Estados Unidos), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

Nossa meta é que 3500 respondam o questionário no QR Code e em:

http://brasil.smilestudy.org

Link também na bio e nos stories. A pesquisa possibilitará o desenvolvimento de tratamentos baseados em evidências e políticas de saúde orientadas por dados. Colabore acessando o site, compartilhando e respondendo!

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

EM DEFESA DE AÇÕES AFIRMATIVAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA E TRANS E CONTRA A APROPRIAÇÃO DE NOSSAS IDENTIDADES POR PESSOAS BRANCAS: Por Fran Demétrio na galeria de personalidades negras da Fundação Cultural Palmares


EM DEFESA DE AÇÕES AFIRMATIVAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA E TRANS E CONTRA A APROPRIAÇÃO DE NOSSAS IDENTIDADES POR PESSOAS BRANCAS: Por Fran Demétrio na galeria de personalidades negras da Fundação Cultural Palmares


Temos acompanhado com profunda revolta, ao longo dos últimos anos, uma escalada de pessoas brancas que se apresentam como não-brancas ou até mesmo como negras, tomando como base apenas uma cor de pele menos clara, quando não modificam suas fotos em perfis de redes virtuais, para tentarem escapar do privilégio que a branquitude lhes traz em diferentes meios sociais, e em alguns casos ocupando, de forma anti-ética, lugares de fala de pessoas negras, apropriando-se destes, e até mesmo exigindo ocupação de ações afirmativas que não lhes são dirigidas. Denunciamos que o mesmo tem ocorrido com relação à transgeneridade branca, com pessoas que se utilizam da confusão do senso comum entre identidades de gênero não-binárias e expressões de gênero andróginas para, de má-fé, ocuparem as poucas vagas para pessoas trans conquistadas em programas de cotas Brasil afora, especialmente na área de educação, mas também nas políticas públicas. Enquanto pessoas pesquisadoras e professoras trans NEGRAS, reiteramos que as identidades travestis e trans têm RACIALIDADE, e que é inadimissível que travestis, mulheres trans,h omens trans e pessoas não-binárias BRANCAS apropriem-se de discursos sobre as identidades negras, por vezes com a anuência ou o silêncio de pessoas e entidades, para invisibilizarem seus privilégios, a fim de reiterar o apagamento de nossos corpos e o epistemicídio que sofremos diariamente!

Destacamos que não somos contra pessoas negras de pele clara, o que criticamos aqui é a apropriação de símbolos, benefícios e lugares epistêmicos de pessoas negras (de cor preta e parda) por pessoas brancas, cis e trans, que não enfrentam racismo no seu cotidiano, o que também é uma expressão do racismo estrutural, sistêmico e inercial que precisa ser combatida.

Ante ao exposto, e no afã de combater a usurpação de nossos espaços simbólicos, dirigimo-nos à FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, tendo identificado que não há personalidades trans em sua Galeria de Personalidades Notáveis Negras, e indicamos a saudosa Professora FRAN DEMÉTRIO, falecida em 2021, para enriquecer essa listagem de pessoas memoráveis:

Dona de um currículo invejável, com Pós-Doutorado em Flosofia pela Universidade de Brasília, Doutorado em Saúde Coletiva pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, Mestrado em Alimentos, Nutrição e Saúde pela Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (ENUFBA) e Graduação em Nutrição pela ENUFBA, Fran Demétrio atuou como professora adjunta no Curso de Bacharelado Interdisciplinar em Saúde (BIS) do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e professora permanente no Mestrado Profissional em Saúde da Família da FIOCRUZ (MPROFSAUDE/FIOCRUZ).

Os temas principais de suas pesquisas eram: humanização, integralidade e interseccionalidade do cuidado em saúde e nutrição; saúde, nutrição, gêneros e sexualidades; nutrição clínica ampliada; qualidade de vida; racionalidades em saúde e nutrição; aleitamento materno; nutrição materno-infantil; epistemologia nutricional e sanitária; segurança alimentar e nutricional; formação interdisciplinar em saúde; e direitos humanos epistêmicos.

Além de uma carreira irretocável no espaço acadêmico, Fran Demétrio também teve uma aproximação bastante significativa com o movimento social de travestis e transexuais.

Subscrevemo-nos:

Jaqueline Gomes de Jesus

Coordenadora do NEABI - IFRJ Campus Belford Roxo; Pesquisadora-Líder do ODARA - Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade (CNPq/IFRJ); Integrante da Comissão da Verdade da Escravidão Negra no Brasil - CEVENB OAB RJ. 

Leonardo Morjan Britto Peçanha

Criador do Negros Blogueiros; Autor e organizador do livro Transmasculinidades Negras; Pesquisador do ODARA - Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade (CNPq/IFRJ).

Megg Rayara Gomes de Oliveira

Coordenadora do NEAB - UFPR; Coordenadora de Políticas Afirmativas da SIPAD - UFPR; Coordenadora da Comissão de Políticas Afirmativas do PPGE-UFPR.


sábado, 29 de outubro de 2022

Bienal Internacional do Livro de Brasília - BiLB 2022


29 de outubro de 2022, sábado, às 18 horas, estarei na 5a Bienal Internacional do Livro de Brasília (BiLB)!


Vem conversar comigo no Stand Literáfrica (n. 72/73, bloco 1B), no Pavilhão do Parque da Cidade, sobre os meus livros "Transfeminismo: Teorias e Práticas" e "Homofobia: Identificar e Prevenir" (Metanoia Editora), e acerca de estratégias para promover uma educação anti-LGBTfóbica: Interseccionalizando Gênero, Sexualidade e Cor/Raça!


Abraços,

Profa. Dra. Jaqueline Gomes de Jesus


quinta-feira, 14 de julho de 2022

Cursos Técnicos em Moda e em Artesanato - IFRJ 2022.2


A sua chance de estudar Produção de Moda ou Artesanato no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) está chegando!

Ainda este mês começaremos o processo de matrícula das vagas remanescentes referente aos cursos Técnico em Produção de Moda e Técnico em Artesanato do IFRJ Campus Belford Roxo!

Em breve publicaremos todas as orientações para que você possa se matricular com a gente.

Mas se você gosta de spoiler, clica no link do edital e já confere todas as informações!

Link do Edital: encurtador.com.br/fR178

Matrículas de 25/07 a 12/08/22

Vem estudar no IFRJ!

#IFRJCBEL

quinta-feira, 31 de março de 2022

As Invasões Epistêmicas

Jaqueline Gomes de Jesus

Invasores epistêmicos: indivíduos que analisam temas fora de suas áreas de especialização, prática recorrente nesta era da fluidez de informações na internet, e até exigida em nossa sociedade do espetáculo, na qual todos "têm que ter" opinião sobre tudo.

As invasões epistêmicas correspondem, portanto, a uma tomada superficial e fragmentada do conhecimento, e para além de uma questão comportamental ou moral, são um dilema da contemporaneidade: como podemos ser mais modestos intelectualmente?

A própria lógica do mundo do trabalho, pautada pelo regime sócio-econômico de acumulação flexível, perversamente nos impõe sermos "empreendedores de nós mesmos", inclusive "autoriza" realizarmos "autodiagnósticos" sem estudar Medicina, ou "autoterapia" sem estudar Psicologia.

Nesse mundo, o senso comum tende a ignorar que ser professor(a) é TRABALHO e que ser estudante TAMBÉM É UM TRABALHO! Não espanta que tantos sujeitos da contemporaneidade, não necessariamente especialistas, sejam influenciadores digitais, e aulas sejam reduzidas a lives ou publis.

Sugiro citar este texto como:
JESUS, Jaqueline Gomes de. As invasões epistêmicas. Jaqueline J., 2022. Disponível em: <http://jaquejesus.blogspot.com/2022/03/as-invasoes-epistemicas.html>.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Lançamento do Dossiê Participação política LGBTI


14/02, 2a feira, 17h (Horário de Brasília), no YouTube da ABETH - Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura:


O Dossiê Temático “Participação política LGBTI+ no Brasil: passado, presente e projetos de futuro" será apresentado pela Editoria Chefe da Revista da Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura - REBEH e pelas/os organizadoras/es Silva Aguião, Vinicius Zanoli e Cleyton Feitosa.

A Profa. Dra. Jaqueline Gomes de Jesus abre o dossiê entrevistando o Ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O dossiê reúne 16 textos de pesquisadoras/es de distintas áreas de conhecimento e regiões do país, publicados no número 14, volume 4, da REBEH, que nesta edição conta com 3 artigos na seção de Tema Livre.

Acesse a Revista em https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/rebeh

#participaçãopolítica #LGBT #pesquisa #estudos #ciência #REBEH #política #direitospolíticos #justiçaeleitoral #diversidade #gênero #sexualidade #raça #etnia



domingo, 30 de janeiro de 2022

A Transfobia Recreativa Não Vencerá

Imagem: Reprodução/TV Globo

A TRANSFOBIA RECREATIVA NÃO VENCERÁ
Jaqueline Gomes de Jesus*

O assédio pode ser caracterizado como o conjunto de práticas discriminatórias recorrentes, com o objetivo de excluir a pessoa assediada do ambiente que ela compartilha com o(a) assediador(a) e as testemunhas do assédio, ou espectadores, que se tornam cúmplices quando silenciam, seja por medo ou anuência. Esse objetivo costuma ser alcançado por meio de desestabilização, isolamento e difamação.

A discriminação negativa histórica, a banalização da violência e a resignação face às injustiças, em nossa cultura, são fatores explicativos de porque o assédio, moral e/ou sexual, é especialmente praticado em ambientes excessivamente competitivos, por sujeitos movidos por antipatia, preconceitos diversos ou até mesmo “inveja patológica”, por razões tão íntimas e subjetivas, como achar a pessoa mais bonita, inteligente, influente ou abastada e se mover para depreciá-la.

Fiz esse preâmbulo para explicar de maneira sucinta os processos psicossociais que estão por trás da explícita transfobia de caráter recreativo, portanto perverso e cínico, que a cantora e atriz Linn da Quebrada vem sofrendo desde que entrou na edição 22 da casa do Big Brother Brasil, envolvendo desde chamá-la no masculino, mesmo vendo um “Ela” estampado em sua testa, desrespeitando sua identidade de gênero feminina, até chamá-la de “traveco”, como se o homem que usa o termo ignorasse a própria cultura e a língua portuguesa do Brasil, que evidencia o caráter depreciativo e ridicularizante da palavra.

Precisa-se explicitar que, na educação transfóbica, é cotidiano tratar as travestis e demais pessoas trans com menosprezo, objetificando, negando a possibilidade de serem ouvidas e valorizadas para além das margens que a sociedade há séculos nos relega. Porém, apesar de tanta tortura psicológica e física, chegando ao assassinato, seguimos resistindo há séculos, e é significativo, em vários sentidos, o fato de termos a primeira travesti em uma edição do referido reality show, onze anos após a participação da modelo e apresentadora Ariadna Arantes no BBB 11, a qual foi coagida e discriminada pelos meios de comunicação simplesmente por ser uma mulher trans. Desta vez, há um coletivo muito mais organizado, atuante e com voz em diferentes organizações para defendê-la, desde a sua entrada durante janeiro, mês da visibilidade trans.

Importante lembrar que, apesar dos sedutores cantos da Sociedade do Espetáculo, ser visível significa, igualmente, tornar-se alvo, especialmente quando se é uma travesti preta que sobreviveu ao transfeminicídio, no país que mais mata mulheres trans e travestis. Uma artista que tem alcançado sucesso e reconhecimento por seu intelecto e criatividade dentro dos gêneros musicais periféricos que dominou, o hip hop e o funk, agora amplamente exposta no programa de maior audiência e repercussão da televisão brasileira. Isso é fundamental para superarmos a invisibilização, ou a visibilidade negativa, e a convivência também é imprescindível para o esvaziamento dos estereótipos, porém isso tudo não encerra, por si só, nem imediatamente, os estigmas que cercam a população trans brasileira, especialmente no momento histórico que vivemos, repleto de fundamentalismo político-religioso.

É imprescindível, não apenas a travestis, mulheres trans, homens trans e pessoas não-binárias, mas também a toda e qualquer pessoa cis (que não é trans), que seja aliada ou apenas acredita que todos precisam ser tratados como cidadãos, questionar a naturalidade dos maus tratos que Linn vem sofrendo em rede nacional! O discurso da solidariedade precisa ser praticado como empatia, e essa prática exige que não sejamos apenas espectadores alienados, satisfeitos em apenas reclamar em nossas redes sociais e grupos fechados.

Gosto de lembrar do que ensinou o movimento negro, em 1994, quando grupos organizados recorreram à Justiça contra uma cena de racismo na novela Pátria Minha, exibida na Rede Globo. O argumento reconhecido foi o de que o problema não era mostrar o preconceito racial intrínseco à cultura brasileira, mas, isso sim, não questioná-lo, como se gerações de pessoas negras não se revoltassem e se mobilizassem contra a discriminação. Após a denúncia pública, para se tentar reparar o dano já feito, foi exibida outra cena, em que uma protagonista, interpretada pela atriz Chica Xavier, condenava explicitamente o racismo e ensinava que jamais houve anuência da população afro-brasileira com a discriminação.

Evidenciando aprendizado a partir deste e de outros episódios, além da mobilização online, a própria Globo interveio no BBB, ressaltando que se deve respeitar a forma como as pessoas se apresentam e dando a voz à própria Linn, para que falasse sobre a questão e, assim, fosse protagonista, representando milhões de pessoas trans Brasil afora, condenando o descuido ou mesmo má-fé no reconhecimento de sua identidade de gênero. Isso não redunda que cesse imediatamente a transfobia, no programa, por exemplo, seguem tratamentos inadequados por parte de jogadores que usam de perversa estratégia para desestabilizar a Linn, porém já é um avanço essa tática ser questionado publicamente.

Concluo ressaltando o que nos ensina a literatura especializada: podemos prevenir o assédio, questionando a banalidade do mal e a permissibilidade frente a qualquer forma de violência, mesmo a verbal, por meio de uma piada ou uma palavra mal colocada; reforçando os laços sociais e de solidariedade dentro e fora dos ambientes que frequentamos; registrando tudo; buscando apoio junto a coletivos e entidades.

Foi o que aprendemos com quem sofreu e resistiu antes de nós: se as suas lutas não alcançaram as conquistas almejadas, outro tipo de vitória eles obtiveram, deixaram para nós um legado absolutamente crucial, de pequenos avanços, que nos permite insurgir a todo esse estado de coisas pernicioso conscientes de que não nos calaremos, e seguiremos defendendo éticas e estéticas que sejam inclusivas.

Enfim, a transfobia recreativa pode até continuar sendo televisionada, entretanto não se poderá mais, impunemente, “passar pano” para ela.


* Jaqueline Gomes de Jesus é psicóloga, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro e da Fundação Oswaldo Cruz. Docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Autora dos livros “Transfeminismo: Teorias e Práticas” e “Homofobia: Identificar e Prevenir”.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

II SEMINÁRIO VISIBILIDADE TRANS DO IFRJ BELFORD ROXO - 2022


II SEMINÁRIO VISIBILIDADE TRANS DO IFRJ BELFORD ROXO - 2022
27 de janeiro de 2022 (quinta-feira), das 14h às 19h

29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade Trans, uma data que referencia o lançamento da  campanha Travesti e Respeito, promovida pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, em 2004, e que visa a promover reflexões sobre a cidadania da população trans (composta por pessoas que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento, como travestis, mulheres trans, homens trans, pessoas transmasculinas e não-binárias).

Nas últimas décadas observamos avanços para uma visibilidade mais positiva e o reconhecimento da cidadania das pessoas trans. Entre elas destacamos o reconhecimento por unanimidade, pelo Supremo Tribunal Federal, em 1º de março de 2018, do direito de pessoas trans alterarem o nome e o sexo no registro civil sem necessidade de se submeterem a cirurgias ou a processos judiciários, podendo essa retificação ser efetuada diretamente em cartório.

Entretanto, o Brasil ainda é o país que mais registra assassinatos de pessoas trans no mundo, principalmente mulheres trans e travestis, o que configura feminicídio, ao mesmo tempo em que a maioria delas só encontra trabalho na informalidade, especialmente na prostituição, e o consumo de pornografia relacionada aos corpos trans é dos maiores do mundo. Há que se pensar sobre objetificação, mas também sobre alianças e representatividade: você costuma ver pessoas trans como protagonistas em produções audiovisuais? Convive com pessoas trans? Estuda com elas? Trabalha com elas? Lê o conhecimento produzido por pessoas trans?

Dando continuidade ao primeiro seminário sobre visibilidade trans do Instituto Federal do Rio de Janeiro – IFRJ campus Belford Roxo, realizado em 27 de outubro de 2017, que abordou o tema da despatologização das identidades, NEABI - Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas, NDIVAS Marielle Franco - Núcleo de Gênero e Diversidades (NUGEDS) e NAPNE - Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Específicas realizarão o II SEMINÁRIO VISIBILIDADE TRANS DO IFRJ BELFORD ROXO, em 27 de janeiro de 2022, quinta-feira, das 14h às 19h.

O seminário será gratuito e certificado, com transmissão online pelo Youtube IFRJ Belford Roxo: https://tinyurl.com/4y4db547 (ative o lembrete). Os palestrantes – entre eles familiares e parceiros/as de pessoas trans, lideranças, pesquisadores de diversas instituições e autoridades – aprofundarão o debate sobre a realidade e as demandas da população nas seguintes mesas: “Amorosidade e Parcerias: A Força do Afeto”, “Nossa Luta é Todo Dia: contra o Racismo, o Capacitismo e a Transfobia”, “Uma Sobe e Puxa a Outra: Mulheridades Vencendo o Patriarcado” e “Transmasculinidades: Ativismo Intelectual na Academia e nas Ruas”, seguidas de debate com o público.

Também haverá lançamento de publicações inéditas, como o livro “Transmasculinidades Negras - Narrativas plurais em primeira pessoa” (Ciclo Contínuo Editorial), com os organizadores Bruno Santana, Vércio Gonçalves Conceição e Leonardo Morjan Britto Peçanha; e o dossiê “Mundo do trabalho, educação profissional e identidade de gênero” (Revista Brasileira de Educação Profissional e Tecnológica - RBEPT), com as organizadoras Ilane Ferreira Cavalcante, Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti e Jaqueline Gomes de Jesus.

PROGRAMAÇÃO

Data: 27/01/2022, quinta-feira

14h: Cerimônia de Abertura
Saudações (máx. 4 minutos de fala individual): Diretor Geral Márcio Franklin Oliveira, Diretora de Ensino Rosi Marina Rezende, Diretor Administrativo Fábio Pires Viana, Coordenadora do NAPNE Profa. Gabriela Sousa Ribeiro,  Coordenadora do NDIVAS Profa. Lívia de Meira Lima Paiva, Coordenadora do NEABI Profa. Jaqueline Gomes de Jesus e Reitor do IFRJ Rafael Almada.

14h30: Mesa 1 – Amorosidade e Parcerias: A Força do Afeto
Palestrantes (10 minutos de fala individual):
Ivoni Conceição Campos Santos, mãe do Demétrio Campos Santos, ator, modelo, dançarino (in memoriam).
Gustavo Cavalcanti, pai da Maria Joaquina, patinadora.
Yuna Santana, cantora e graduanda em Direito, e Theo Brandon, graduando em Medicina, pais do Dionísio Santana Brandon.
Mediadora: Jaqueline Gomes de Jesus
Debate da Mesa 1 (20 minutos)

15h30: Mesa 2 – Nossa Luta é Todo Dia: contra o Racismo, o Capacitismo e a Transfobia
Palestrantes (10 minutos de fala individual):
Luana Rayalla, bibliotecária.
Walleria Suri, consultora em diversidade.
Alessandra Ramos Makeda, presidenta do Instituto TransFormar Shélida Ayana.
Mediadora: Gabriela Sousa Ribeiro
Debate da Mesa 2 (20 minutos)

16h30: Mesa 3 – Uma Sobe e Puxa a Outra: Mulheridades Vencendo o Patriarcado
Palestrantes (10 minutos de fala individual):
Jaqueline Gomes de Jesus, professora de Psicologia e presidenta da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura.
Viviane Vergueiro, oficial de programa do Fundo Internacional Trans e doutoranda em Gênero, Mulheres e Feminismos.
Mediadora: Lívia de Meira Lima Paiva
Debate da Mesa 3 (20 minutos)

17h30: Mesa 4 – Transmasculinidades: Ativismo Intelectual na Academia e nas Ruas
Palestrantes (10 minutos de fala individual):
Bruno Santana, professor de Educação Física.
Vércio Gonçalves Conceição, professor de Letras e doutorando em Letras. 
Guilherme Silva de Almeida, professor de Serviço Social.
Mediador: Leonardo Morjan Britto Peçanha, professor de Educação Física e doutorando em Saúde Coletiva.
Debate da Mesa 4 (20 minutos), com lançamento do livro “Transmasculinidades Negras - Narrativas plurais em primeira pessoa” (Ciclo Contínuo Editorial), com Bruno Santana, Vércio Gonçalves Conceição e Leonardo Morjan Britto Peçanha (organizadores).

18h30: Lançamento do Dossiê “Mundo do trabalho, educação profissional e identidade de gênero” (Revista Brasileira de Educação Profissional e Tecnológica - RBEPT), com as organizadoras Ilane Ferreira Cavalcante (IFRN), Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti (IFPA) e Jaqueline Gomes de Jesus.

19h: Encerramento do Seminário


Realização:

IFRJ campus Belford Roxo
NEABI - Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas
NDIVAS Marielle Franco - Núcleo de Gênero e Diversidades (NUGEDS)
NAPNE - Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Específicas

domingo, 2 de janeiro de 2022

A Cultura como Resistência do Povo Trans


A CULTURA COMO RESISTÊNCIA DO POVO TRANS
Jaqueline Gomes de Jesus

Originalmente publicado como prefácio do livro "Coletânea da Academia Transliterária" (Belo Horizonte: Marginália Editora, 2019)


O meu corpo não é objeto,
sou revolução
(Éle Semog, 1998, p. 57).

Escrever. Essa é uma experiência recente, em termos históricos, para o coletivo da população trans que vivencia a transfobia estrutural da sociedade brasileira. Obviamente que muitas pessoas trans sempre escreveram, porém eram muito exíguas em número, dado que uma das características da transfobia brasileira é a exclusão do povo trans do ambiente escolar, da educação formal, mesmo após esse direito ter sido garantido pela Constituição Federal desde 1988.

Apesar desta violência institucional, essa mesma população trans, estigmatizada e vilipendiada de seus direitos fundamentais, ao longo dos séculos construiu uma cultura rica e elaborada sobre si e sobre o corpo. Apesar de toda violência psicológica e física, representada significativamente pela repressão e perseguição policial, ou dos falsamente chamados de “justiceiros”, ela criou uma linguagem própria, afro-centrada, aliás, o Pajubá (ou Bajubá, como falam em algumas regiões do país), principalmente do banto ouvido nos terreiros de candomblé que as receberam.

Ante à negativa do domínio da linguagem escrita, ou da sua exposição no mainstream do mercado publicitário da literatura, foi desenvolvida toda uma oralitura pelo povo trans.

Como lhes foi recusada a inclusão plena na sociedade brasileira, a formação de uma identidade social trans não se deu no mundo do trabalho formal, não se deu em escolas, ela se deu por meio da cultura que as mais antigas travestis começaram a pensar, desenhar e performar nas casas de prostituição, nas ruas, e chegando, em alguns momentos, às casas de espetáculo, às boates, aos teatros, até. Pelos shows de transformismo (posteriormente anglicizados como apresentações de drag queens), bailes e espetáculos de travestis do século XIX, presença cativa nos carnavais e isolada no resto do ano, que teve seu auge nos anos 60 do século XX, com divas como Brigitte de Búzios, Camille K, Cláudia Celeste, Divina Aloma, Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Jane Di Castro, Marquesa, Rogéria e outras, chegando às elaboradíssimas performances multimídias de uma artista como Cláudia Wonder. Fontes primeiras de formas de expressão de si que incluem, mas vão muito além, do corrente sucesso nacional e global das cantoras drag dissidentes de gênero, que não são necessariamente trans, como Aretuza Lovi, Glória Groove, Kaya Conky, Lia Clark e, destacadamente, Pablo Vittar.

E não são só elas. Outras cantoras e grupos como As Bahias e a Cozinha Mineira, Liniker, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, Pepita (a qual lançou um livro no qual reúne os ótimos conselhos que oferece a seguidores do seu canal no instagram), Mc Xuxu e outros têm se destacado aquém do transformismo, e reelaborado identidades trans e libertações dos estereótipos de gênero. Tudo isso é Brasil. As pessoas trans também são Brasil.

Nada disso foi concessão, mas conquista histórica de geração após geração da população trans, no caminho para a construção de uma comunidade.

Lamentalvemente rotulada como simplesmente “entretenimento”, a cultura trans tem sido alvo de ridicularização, senão de escárnio, porém, concomitantemente, foi por muito tempo apropriada por outros e invisibilizada de sua dimensão especialmente integrada à consolidação de um grupo constituído pela identidade de gênero daqueles que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído quando nasceram. Foi por meio de sua cultura que as pessoas trans conseguiram formar laços e sobreviver ante a toda forma de matança que vêm sofrendo.

Alguém ainda há de estudar mais aprofundadamente as velhas revistas pornôs como uma brecha para a expressão das individualidades das travestis e mulheres trans, entre toda a objetificação do seu corpo.

Mesmo aquelas pessoas sobreviventes que escrevem, identificadas enquanto travestis, mulheres trans ou homens trans, continuam não sendo reconhecidas, não sendo lidas adequadamente, não sendo citadas devidamente. Causa muito impacto às mentalidades centradas na cisgeneridade, enquanto padrão de humanidade, observar a produção de conhecimento da população trans: de fato valorizar o que pensamos e escrevemos, sem nos exotificar, é um desafio que se tem apontado cada vez mais.

Como eu escrevi brevemente em “Nascimentos em Livro” (prefácio de “Vidas Trans”, que relata parte da vida e lutas dos meus amigos Amara Moira, Márcia Rocha, Tarso Brant e João W. Nery), tendo bastante em conta a minha própria experiência, como pensadora, professora, acadêmica, intelectual-ativista, como costumo me referenciar (indico aqui a leitura do capítulo sobre transfeminismo, escrito por Helena Vieira e Bia Pagliarini Bagagli, para o livro “Explosão Feminista”, a fim de conhecer mais detalhadamente essa forma de me identificar):

“Mas quem ouve a pessoa trans? – Age-se como se não falássemos. Quem a lê? – Age-se como se não escrevêssemos... É contumaz que terceiros (geralmente cis) falem por nós, iniquamente, sem considerar nossos pontos-de-vista, nossa visão de mundo, nosso protagonismo em todas as suas expressões” (Jesus, 2017, p. 7).

Temos também uma tradição na Literatura, especialmente no que se refere às biografias. O livro “Viagem Solitária”, do saudoso João W. Nery, foi o maior exemplar dela, com impactos na cultura geral, com destaque para a teledramaturgia (a novela “A Força do Querer”); antecedido por autores como Anderson Herzer, o Bigode: “A Queda para o Alto”; Ruddy Pinho e suas várias obras premiadas, como “Nem Tão Bela, Nem Tão Louca”; e Fernanda Farias de Albuquerque, cujo depoimento foi recolhido pelo homem cis Maurizio Jannelli, das Brigadas Vermelhas italianas, no livro “A Princesa”. Mais recentemente, com a assunção dos bloggers, vloggers, youtubers e outros comunicadores que se utilizam dos recursos da internet, tivemos a publicação de livros nessa linha, como o “Meu Nome é Amanda”.

A nova frente é a de antologias de autores trans, da qual este valoroso livro da Academia Transliterária participa! É uma alternativa para enfrentarmos os problemas de distribuição para as nossas publicações: organizarmos elas coletivamente. Destaco aqui a coletânea “Nós Trans”, da qual participo, e “Antologia Trans”, entre outras.

Nessa longa – tantas vezes incógnita – trajetória, o saber-fazer da população trans tem ocupado novos lugares, falado de si para além dos guetos, escrito também, e potentemente publicado, superando a exotificação, como aqui, para o nosso empoderamento, e também para a humanização das pessoas cis.

Referências Bibliográficas

Albuquerque, F. F. & Jannelli, M. (1995). A Princesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Cursinho Popular Transformação. (2017). Antologia Trans: 30 poetas trans, travestis e não-binários. São Paulo: Invisíveis Produções.

Guimarães, A. (2016). Meu Nome é Amanda. Rio de Janeiro: Fábrica231.

Grupo Transcritas Coletivas. (2017). Nós Trans: escrevivências de resistência. Belo Horizonte: Litera Trans.

Herzer, A. B. (1982). A Queda para o Alto. Petrópolis: Vozes.

Jesus, J. G. (2017). Nascimentos em Livro. Em: A. Moira, J. W. Nery, M. Rocha & T. Brant (Orgs.), Vidas Trans (pp. 7-8). Bauru, SP: Astral Cultural.

Moreira, L. I. (2018). Vozes Transcendentes: os novos gêneros na música brasileira. São Paulo: Hoo.

Nery, J. W. (2011). Viagem Solitária: memórias de um transexual trinta anos depois. São Paulo: Leya.

Pepita, M. (2019). Cartas pra Pepita. São Paulo: Monocó Literatura LGBTQ+.

Pinho, R. (2008). Nem Tão Bela, Nem Tão Louca. Rio de Janeiro: Nova Razão Cultural.

Semog, E. (1998). Dançando negro. Em: E. Ribeiro & M. Barbosa (Orgs.), Cadernos negros: melhores poemas (p. 57). São Paulo: Quilombhoje Literatura.

Vieira, H. & Bagagli, B. P. (2018). Transfeminismo. Em: H. B. Hollanda (Org.), Explosão Feminista: arte,cultura, política e universidade (pp. 343-378).São Paulo: Companhia das Letras.

Wonder, C. (2008). Olhares de Cláudia Wonder: crônicas e outras histórias. São Paulo: Edições GLS.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

NÓS SOMOS A NEBLINA


Nós Somos a Neblina

Filme inspirado no prefácio escrito por Jaqueline Gomes de Jesus entre os bairros da Glória e de Santa Teresa, Rio de Janeiro, entre junho e setembro de 2021, inverno ao sul da Abya Yala (América), para o livro "Performatividade Transgênera: equações poéticas de reconhecimento recíproco na recepção teatral", de Dodi Leal (Hucitec, 2021).

Texto adaptado e gravado na cidade de Porto Seguro, em novembro de 2021, costas de Pindorama (Brasil).

Todo amor e solidariedade ao nosso povo baiano e brasileiro: seguiremos resistindo!

FICHA TÉCNICA

Texto: Jaqueline Gomes de Jesus
Atuações: Dodi Leal e Jaqueline Gomes de Jesus
Concepção: Dodi Leal
Direção: Gau Saraiva


#neblina #resistência #ancestralidade #brasil #decolonialidade #interseccionalidade #desejo #transformação #filme #curta #lyricvideo #negritude #negra #trans #transgênero #travesti #lgbt #brasilidade #bahia #portoseguro

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

O Que é Psicologia?

Psicologia - Jaqueline Gomes de Jesus - Escolar Editora

🤔 O QUE É PSICOLOGIA?
Fátima Rodrigues, Palmira Fortunato dos Santos, Jaqueline Gomes de Jesus
Lisboa, Portugal: Escolar Editora (2021)

Acabou de ser lançado em Portugal meu novo livro, mais uma produção transatlântica pela Coleção Cadernos de Ciências Sociais, em parceria com as colegas portuguesa Fátima Rodrigues e moçambicana Palmira Fortunato dos Santos, sob as bençãos do saudoso professor Carlos Serra, que nos deixou em 2019. 🙏🏾

Como eu explico no capítulo "Funções da Psicologia na Sociedade do Conhecimento", a história da nossa ciência-profissão tem sido pautada por uma ânsia pelo controle, pela colonização dos corpos, pela patologização: "Do pecado ao crime. Do crime à doença". Na contemporaneidade, felizes, mais psicólogas/os são críticas/os à instrumentalidade política da Psicologia em sua institucionalização acadêmica tão eurocêntrica e "norte-americano-cêntrica".

Este livro é um sobrevivente de muitos percalços, mas resistiu, e eu o ofereço à memória do inesquecível Carlos Serra! Como ele dizia: "Muito obrigado, que a saúde esteja consigo, ABRAÇO ÍNDICO"! 😢🙌🏽❤️

📙Link para a loja virtual da Escolar Editora: https://escolareditora.com/store/product/0/139119/que-e-psicologia-o

#psicologia #ciência #profissão #contemporaneidade #livro #gratidão

domingo, 26 de dezembro de 2021

Perguntas de uma Macumbeira sobre o Natal

PERGUNTAS DE UMA MACUMBEIRA SOBRE O NATAL
Jaqueline Gomes de Jesus

Escribas leram a profecia, nenhum foi a Belém.
Os Reis Magos, astrólogos migrantes,
Deram ouro para a realeza, incenso para a divindade
E mirra para a pessoa que viria a morrer.
Por que os estudiosos não visitaram o estábulo?

Maria era uma sofrida garota da Palestina,
Mal devia ter treze anos quando pariu Jesus.
A manjedoura fedia a urina e fezes dos animais.
Onde está a cor da pele e a placenta da mãe
Nos presépios assépticos que são hoje montados?

Herodes ordenou que as crianças fossem mortas.
Quem lembra do sangue dos inocentes,
Quando finge ser Papai Noel, roga a Deus
Por carros, roupas, emprego, família,
Mas vota para que um Herodes ocupe o palácio?

Perguntas de quem sabe que um Deus Menino
Representa a vida que se renova como amor
Pulsando desde párias, excluídos, escravizados.
Apesar do recalque dos donos da verdade
Que odeiam vê-lo livre sob estrelas e nos corpos.

*

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Dossiê “Mundo do trabalho, educação profissional e identidade de gênero”

Revista Brasileira de Educação Profissional e Tecnológica (RBEPT)
Dossiê “Mundo do trabalho, educação profissional e identidade de gênero”
Organizadoras: Ilane Ferreira Cavalcante, Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti, Jaqueline Gomes de Jesus

Acesso ao dossiê em https://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/RBEPT/issue/view/203



Nem Só Azul e Rosa: Diversidade Sexual e de Gênero na Educação Profissional e Tecnológica
Robelania dos Santos Gemaque, Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti, Jaqueline Gomes de Jesus

RESUMO
O acesso e a permanência de discentes e trabalhadores da educação fora dos modelos heteronormativos e cisnormativos são preocupações cada vez mais presentes na Educação Profissional e Tecnológica. O presente artigo propõe uma análise contextualizada, a partir de estudo realizado na Escola Estadual Tecnológica Professor Francisco das Chagas Ribeiro de Azevedo EETEPA-CACAU-ICOARACI, que teve como objetivo construir uma prática educativa sobre Gênero e Sexualidade no Ensino Médio Integrado. Conclui-se que a importância dada a Gênero e Sexualidade não é necessariamente acompanhada de práticas que rompam silenciamentos ou tentativas de homogeneizar diferentes identidades de gênero e orientações sexuais no cotidiano escolar.

Palavras-chave: Práticas educativas; gênero e sexualidade; educação profissional e tecnológica; heteronormatividade; cisnormatividade.




quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Vocês, Os Perversos! - Poema de Jaqueline Gomes de Jesus

 Orfeu e as Bacantes, de Gregorio Lazzarini (Óleo sobre tela, 1710).



VOCÊS, OS PERVERSOS!

Jaqueline Gomes de Jesus

Um poema inspirado em Lélia Gonzales, Maya Angelou e Glória Anzaldúa.


À memória de Xica Manicongo e todas transcestrais.


Aquela preta só tinha o vaso traseiro,

Eu não podia fazer nela minha cria

Não podia me dar prole pro meu lucro futuro.

De que vale uma peça que não procria?

Nem vou te chamar de mulher: Quimbanda!

Rebolando pra vender sapatos pro seu dono.

Abaixa a cabeça! Eu te como e cuspo,

Só vales pra foder! A Lei protege o bom cristão.


Aquilo virou puta, não mais vende sapatos.

Os meninos gargalham e lhe chamam pelo nome: Travesti!

Jogam bosta porque são calmos, senão linchavam:

Vou dar uma arma pra eles virarem homens.

Volta pro quarto escuro, sai da luz do dia!

Anoiteceu, você pode cantar neste palco pra mim.

Não se atreva a pisar na rua em vestido de mulher.

Engane os outros, mas quem decide é a gente de bem.


A polícia chegou - aplausos! Ela corta os pulsos - aidética.

Quem apavora as famílias? Vocês, os perversos!

Quem teria coragem de andar com você, sendo triste assim?

Quem poderia lhe amar, sendo tão agressiva?

Quem poderia confiar em você, sendo tão doce e risonha?

Entra no camburão, lava a delegacia, dá e alivia quem te quiser.

Hoje só vai apanhar, amanhã vão te matar,

Limpar as calçadas para que passem esses cidadãos de bem.


Como alguns conseguiram viver fora das paredes com as quais lhes aprisionamos?

Vocês não podem ter alegria, amor, o bom é você apanhar.

Não contamine seu dono, ele sempre mete sem dó.

Estão tentando estudar conosco? Mas vocês são o objeto!

Uma de vocês até começou a dar aula - como deixaram?

Que tempos são estes em que o lixo fala, e numa boa?

Saia do banheiro das meninas, entre neste pra ter surra ou curra!

Fora da escola, do hospital, da casa de família de bem!


Vou te pôr no seu lugar. Grito: Travesti!

Você me afronta: TRAVESTI, SIM! Diz que vou pra cadeia.

Vou te diagnosticar. Escrevo no laudo: TRANSEXUAL!

Você me afronta: TRANSEXUAL, SIM! E escreve meu laudo.

Mas quem decidirá sou eu! Grito pra cada um: Homem! Mulher!

Vocês desmentem: NÃO, MULHER! NÃO, HOMEM! NÃO BINÁRIO!

Agora são vocês que querem decidir, chamam a si mesmos de TRANS.

E o horror: chamam a si mesmos pelos nomes que bem lhes convier!


Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 2021.