sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A Masculinidade Tradicional Prejudica Homens e Garotos

Foto: Mario Tama/Getty Images

Novas orientações da Associação Americana de Psicologia (APA) apontam que A MASCULINIDADE TRADICIONAL PREJUDICA HOMENS E GAROTOS.

Essa produção científico-profissional é inédita, porque os homens - particularmente os brancos, cisgêneros e heterossexuais - sempre foram tratados como a norma de humanidade, e não como sujeitos culturalmente construídos, que apresentam alguns valores em comum, decorrentes da sua formação pessoal de acordo com uma ideologia, e não de uma falaciosa natureza masculina, quais sejam: anti-feminilidade, realização,  evitação da aparência de fraqueza, adesão a aventura, risco e violência.

Essa masculinidade tradicional é perniciosa mesmo para os indivíduos que gozam dos privilégios da sociedade machista, tanto para a saúde física quanto para a mental de homens e meninos.

Identificam-se maiores taxas de suicídio, problemas cardiovasculares e solidão entre homens mais velhos. Isso se relaciona à sua dificuldade, estimulada desde a infância, em expressarem seus sentimentos e formar relacionamentos profundos.

Homens que endossam os papéis estereotipados de gênero tendem a expressar medo de ter intimidade e desconforto por gostarem fisicamente de outros homens; e quando casados com mulheres, vivenciam relações conjugais associadas à depressão em suas esposas, conflitos intra-familiares e dificuldades com o cuidado parental.

As inseguranças vividas por garotos, submetidos a normas masculimas sexistas e patriarcais para se identificarem como homens, relacionam-se ao maior uso de poder e controle nos relacionamentos quando adultos, expressando-se em violência e abuso sexual "justificadas" contra parceiras íntimas; tendência a transar com muitas pessoas, sem proteção, cuidado consigo ou com a(o) outra(o); percepção de mulheres trans e travestis como "fingidoras", "falsas" que "só se vestem" e de homens trans como não sendo homens "de verdade", o que leva à agressão verbal, física e às altas taxas de crimes de ódio fatais contra as mulheres trans e travestis.

Você pode acessar as orientações (em inglês) por este link: https://www.apa.org/about/policy/boys-men-practice-guidelines.pdf

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Não é sobre Cores, é sobre Vidas!


NÃO É SOBRE CORES, É SOBRE VIDAS!

O desabafo entusiasmado da Ministra Damares sobre "a nova Era" que estaria começando no Brasil, na qual "menino veste azul e menina veste rosa", demonstra, primeiramente, como reage o pernicioso apartheid de gênero (ideologia que rege a nossa educação, das famílias às escolas), quando confrontado com a diversidade de existências, pensamentos e sentimentos que ele não consegue abarcar, dentro de seus modelos limitados sobre o que podem homens e mulheres.

Porém o discurso vai além. Tem alvos diretos aos quais ele não dá nomes (nomear também é reconhecer a existência, e isso não é desejável para quem odeia aqueles que preferia que não existissem). A metáfora das cores é o silêncio sobre as vidas trans, ao mesmo tempo em que nega frontalmente a nossa existência!

É de sexismo e de transfobia que se está dizendo, o medo - iníquo, tosco, mas poderoso porque representa o pensamento dominante - de que meninos e meninas estariam "confusos" porque adultos (professores, outro grupo considerado prejudicial pela ideologia no poder) lhes dizem que eles não são meninos e meninas. Uma fantasia adotada pelos que se horrorizam quando se lhes aponta que as crianças, quaisquer crianças, conformam-se aos estereótipos de gênero estabelecidos pelos adultos, e não que elas nasçam com esta ou aquela "identidade biológica" (um conceito bizarro, pseudocientífico, para tentar florear o senso comum de que o sexo biológico determina o gênero e o comportamento das pessoas). Sem uma única palavra sobre as pessoas trans, sobre homens e mulheres trans e travestis, é do ódio contra essa população que se fala, com um sorriso nos lábios. Esse sentimento expressa, no fundo, a preferência de que a transgeneridade não existisse, quiçá fosse exterminada. Faz sentido, no país em que mais se registram assassinatos de pessoas trans no mundo, sendo que mais de 90% das vítimas são as travestis e mulheres trans, o que configura um feminicídio ignorado solenemente, porque a identidade de gênero dessas mulheres não é reconhecida, dado que sequer são vistas como gente.

As vidas trans importam! E elas também incluem crianças e idosos. Precisamos protegê-las!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

BATE-PAPO COM A JAQUE


25 de julho, quarta-feira, às 18 horas
Sede do PT - Rua 7 de Setembro, 164, Centro - Rio de Janeiro/RJ
Evento no Facebook: http://bit.ly/2A11zJr (transmissão ao vivo)

25 de julho é o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e também dia de bater um papo com a professora Jaqueline Gomes de Jesus!

Pré-candidata a Deputada Estadual, Jaqueline é mulher negra e a primeira trans pré-candidata pelo Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro a uma vaga na ALERJ.

Jaque é professora na Baixada Fluminense, pesquisadora, psicóloga, comprometida com os direitos humanos e a luta contra o racismo, o machismo, as LGBTIfobias e quaisquer outras intolerâncias. Ela quer construir um mandato coletivo a serviço da justiça, da educação pública, dos direitos das mulheres, da igualdade e da efetiva valorização da diversidade!

Reconhecendo sua trajetória única, a vereadora Marielle Franco lhe concedeu a Medalha Chiquinha Gonzaga em 2017.

Quer fazer a diferença nestas eleições? Vem com a gente no bonde!!!
#TocomJaque

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Shélida Ayana (1996-2018)

 
Shélida Ayana foi uma menina genial, que acabou de falecer. Muito doído viver perdas assim, de pessoas que, para além de serem queridas, somam-se a nós para mover o mundo a um lugar melhor!

Professora, guerreira, menina, mulher negra e trans, como eu, com quem pude compartilhar afetos e ideias, bandeiras, lutas, mesas sobre transfeminismo negro, realizado pela Maria Clara Araújo na Casa Nem, e despatologização, que organizei no meu campus do Instituto Federal do Rio de Janeiro, em Belford Roxo - na Baixada Fluminense, onde Shélida morava e lecionava, na Educação Infantil.


Tive a honra de lhe ministrar uma aula e desenvolver atividades no curso de formação política Transformação, coordenado por Alessandra Ramos Makkeda na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Em dezembro, ela conquistou uma grande vitória: a retificação do seu nome nos documentos de registro civil: não era mais Shélida só de fato, mas também de direito!


Recentemente ela aceitou, com alegria, ser coordenadora de educação da minha pré-campanha...


Seguimos a caminhada sem essa força viva que ela trazia, e que nos animava... Guardemos sua memória e nos tornemos mais conscientes com os ensinamentos dela! Em mente, coração e espírito!


Meus sentimentos aos familiares e demais amigos.
Obrigada por ter brilhado neste mundo conosco!


Axé, maninha Shélida!


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Eu Sou Uma Sobrevivente

Eu sou uma sobrevivente de epistemicídios que transforma a revolta em perguntas e respostas. Acadêmicas, sim, mas não necessariamente academicistas. Vivas, sobretudo!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Denunciar o Trans Fake é um Ato de Cidadania


"Diante de outro ponto de vista
Talvez você pudesse admitir a sua visão distorcida
Suas opções estéticas equivocadas
Seus modelos de beleza programados pela televisão"
(Ilusão de Ótica, de Cristiane Sobral).

O que significa representatividade?
Você se vê nos meios de comunicação? Na televisão, nos anúncios, na internet, no cinema, no teatro?
Para além de se ver ou não, a representatividade esconde sempre uma relação de poder: quem é representado?
Quem é o ser humano digno de ser visto, ouvido, lido?
Todos, diriam pessoas que pensam como eu, porém o mundo é pautado por lógicas de opressão que discriminam alguns, a favor do privilégio de outros, em nome de todos:
Todos os dias nós vemos o homem branco falar sobre o mundo. O homem branco (que também é cisgênero, de classe média ou alta, heterossexual, casado e com filhos) apresentado como aquele que pensa e se expressa dignamente acerca de todos os assuntos.
Do que falam as mulheres? Todas as mulheres, não só as brancas, as cisgêneras, heterossexuais, casadas, com filhos, etc, mas também as negras, indígenas, trans, lésbicas, bissexuais, solteiras, sem filhos etc?
O tema "representatividade" não é de ontem. Tem longa história.
Quando falamos do TRANS FAKE (a tradicional prática de escalar SOMENTE pessoas cis para interpretar pessoas trans) estamos discutindo isso, voltando a uma questão pujante desde o início do século XX, pelo menos, que retoma as discussões, lutas e vitórias da população negra contra o BLACKFACE, uma nefanda prática teatral do século XIX, que embrenhou no XX, de se colocar pessoas brancas - representadas de forma hiper estereotipada - para interpretar personagens negros.

Mas por que estou falando disso?

O movimento Representatividade Trans ( https://www.facebook.com/RepresentatividadeTrans ), organizado por atores e atrizes trans (travestis, mulheres e homens trans), alcançou rara visibilidade dada aos pontos de vista de pessoas trans, ao denunciar a recorrência do TRANS FAKE na produção artística brasileira. Recomendo conhecer, igualmente, o grupo Representatividade Trans Já: https://www.facebook.com/groups/1486831161341452

Esse é um movimento global, iniciado em países como Estados Unidos da América e Reino Unido, no qual a população trans tem protagonizado questionamentos sobre a recorrente colocação de pessoas cis no papel de pessoas trans.

Historicamente, atores cis têm representado personagens trans desde a primeira exibição de um filme sobre transgeneridade. Não à tôa, HOMENS CIS costumam ser escalados para interpretar MULHERES TRANS E TRAVESTIS, e MULHERES CIS para HOMENS TRANS.

Isso não é por acaso. É parte da lógica de desumanização da população trans, por meio da nossa invisibilização. Por meio da nossa substituição por aqueles que se julgam nos representar integralmente. É uma expressão da transfobia estrutural.

Deriva, em primeiro lugar, da perversa ideia de que mulheres trans e travestis seriam "homens", e homens trans seriam "mulheres".

(Há também um sequestro da Cultura Trans, algo que, infelizmente, ocorre há décadas, pela invisibilização do protagonismo trans e travesti sob o rótulo LGBT, com práticas como a arte drag sendo negada para as pessoas trans que a criaram, mas isso é assunto para outra conversa).

Não basta uma simplória posição de "o ator interpreta qualquer papel", tampouco de "atores trans podem interpretar personagens cis". Não é suficiente dizer, ainda, que não há pessoas trans capacitadas. Atores trans têm sido sistematicamente excluídos de representar qualquer papel. Sob vários argumentos.

São argumentos velhos conhecidos de quem lembra, por exemplo, da revolta do histórico militante Abdias Nascimento contra o BlackFace, quando ele fundou, nos Anos 40 do século XX, o Teatro Experimental do Negro - TEN. Quando o argumento explicitamente racista foi esvaziado de sentido ("negros não podem interpretar"), dizia-se que não havia atores negros capacitados para serem atores. O TEN então formou ou revelou talentos negros AINDA HOJE desvalorizados ou menos valorizados do que mereciam, adaptou ou criou textos adequados a essa inovadora perspectiva afrocentrada.

Voltemos ao Trans Fake, cunhado pelo movimento trans como "fake" para ressaltar a falsidade na interpretação de um personagem trans por uma pessoa cis, em detrimento dos atores trans: esse não é um problema desta ou daquela peça/novela/ator/atriz, é um desafio PARA TODA A CADEIA PRODUTIVA DA ECONOMIA CRIATIVA ARTÍSTICA! Exige um compromisso das pessoas cis incluídas nesse sistema pela sua transformação, de dentro, a partir do empoderamento do talento trans.

Não há consciência sem memória. Não há memória sem representatividade. Só quando eu vejo os meus eu sei que posso estar em qualquer lugar, não só naqueles que o preconceito tenta me impor. Ao não verem as pessoas trans se interpretando, crianças e adolescentes trans vão sendo criados para serem os adultos alienados de si mesmos, que não se vêem, primeiramente, como dignos de existirem. Como se pessoas trans brotassem, e não se desenvolvessem como as pessoas cis.

Eis um sintoma da desumanização imposta às pessoas trans, que leva à ideia da patologização das identidades trans, contra a qual encampamos - nós e os aliados cis - uma campanha internacional.

No contexto das relações intergrupais entre grupos opressores e oprimidos, bastante estudadas, vale ressaltar, vivemos um momento em que algumas pessoas trans conseguiram acessar o mundo cis (para além da negação da nossa existência, e da nossa condição de mulheres ou de homens), não encontrando trabalho apenas na prostituição ou em outros nichos marginalizados do mercado informal.

Essa não é a etapa final da relação intergrupal entre os opressores cis e os oprimidos trans. É o momento em que deparamos com o muro que ainda impede a maioria da população trans de acessar o que é rotineiro às pessoas cis: direito a identidade, direito ao próprio corpo, direito de ir e vir, direito à vida, saúde, educação, trabalho digno.

A não valorização do talento trans é parte desse sistema transfóbico: quer-se as pessoas trans como os objetos de estudo, não como as protagonistas; como aquelas das quais se vendem as imagens e ideias, mas não se as contrata; como aquelas pessoas exóticas sobre as quais é curioso falar, e não como as pessoas tão capazes quanto as cis, que podem falar de si mesmas.

Obviamente que essa ideia não é consciente para todo mundo: a ideia de que pessoas trans são gente não é comum ainda; ainda há pessoas cis (e trans), que mesmo aliadas da população trans, não consideram mulheres trans tão mulheres quanto quaisquer outras mulheres, nem homens trans tão homens quanto os cis; a própria ideia de que as pessoas que não são trans - às quais demos o nome de cis - também têm identidade de gênero (reconhecendo-se com o gênero que lhes foi atribuído), ainda não é vista como óbvia.

A crítica ao Trans Fake não é exibicionismo, é enfrentamento ao apagamento das pessoas trans que tem levado ao nosso EXTERMÍNIO SIMBÓLICO, PSICOLÓGICO, FÍSICO!

Apoiar a representatividade trans de fato, e não só no discurso, é assumir um posicionamento político em prol das vidas trans, é dizer que essas vidas importam e que a revolta contra a transfobia é a base de uma revolução cidadã!

Decerto que isso exige uma mudança estrutural (educação e empregabilidade), e não somente pontual (acesso a este e aquele evento cultural), mas são as pequenas iniciativas que darão o "input", o "start" para a grande trans-formação.

(Destaco, para o caso de não ter ficado bem compreendido o meu ponto: não estou dizendo que pessoas trans só devam interpretar pessoas trans. Endosso o argumento de que ator/atriz representa qualquer "coisa", porém demonstro que o suposto universalismo dessa bela concepção esconde, na prática, a exclusão dos atores e atrizes trans tanto de papeis cis quanto trans).

Valorizar os talentos trans é reavivar a humanidade das próprias pessoas cis, é dizer que ser gente é mais do que só isso que aí está sendo representado. É reconhecer o universo de novas narrativas que têm sido renegadas/depreciadas, devido ao não-olhar do apartheid de gênero, do sexismo e, por conseguinte, da transfobia.

A negritude também é mundo. Como a mulheridade. Como a transgeneridade. A sua, a minha, a nossa! Ao ser representada não estou falando só de mim, tampouco estou tão-somente denunciando o egocentrismo desses que se acreditam representar sozinhos o mundo, ao custo dos outros humanos.

A representatividade trans é um farol para o mundo, é guerrilha e profecia.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

RÉVEILLON

Do verbo francês réveiller: "acordar" ou "reanimar" (em sentido figurado).

O réveillon é o despertar do novo ano!