sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Por Quê Criminalizar a Homofobia e a Transfobia

POR QUÊ CRIMINALIZAR A HOMOFOBIA E A TRANSFOBIA
Jaqueline Gomes de Jesus

Há exatos dois anos, Dandara dos Santos foi torturada e brutalmente assassinada em via pública, de dia, por um grupo de homens, POR SER UMA TRAVESTI.

A violência letal transfóbica é rotineira, neste que é o país que mais mata pessoas trans no mundo, especialmente as travestis e mulheres trans.

É um perigo real e imediato ser trans no Brasil, não por causa da nossa identidade de gênero, mas devido à transfobia naturalizada, entremeada nas instituições, a qual explica também o apagamento de nossa transgeneridade, que costumeiramente cerca esses casos.

O GENOCÍDIO trans é a parte mais visível de todo o apartheid que nos cerca: agressões verbais, ridicularizacão, impedimento de acesso a espaços de uso comum, exclusão escolar e trabalhista. Tudo isso ocorre impunemente.

Trago a conjuntura à baila: tornar a homofobia e a transfobia em crimes é criar condições CONCRETAS, insuficientes mas fundamentais, para que tenhamos instrumentos LEGAIS, e não apenas legítimos, para nomear e denunciar tais violações!

Sou professora. Já coordenei e ministrei centenas de atividades de valorização da diversidade. Eu sei muito bem que somente com uma EDUCAÇÃO inclusiva transformaremos o cenário atual, a médio e longo prazos. Eu escrevi um livro inteiro sobre isso, o "Homofobia: Identificar e Prevenir", de 2014, pela Metanoia Editora.

Eu escrevo como aquela que pôs a mão na massa pra mudar a realidade que aí está, não fiquei só teorizando, nem me prendo - em todos os sentidos - à sala de aula.

Eu porém também sei que a educação sozinha não é suficiente. Sem um sistema jurídico que reconheça a LGBTIFOBIA como violência punível, os detratores e assassinos continuarão nos matando sem que tenhamos instrumentos específicos para enfrentá-los!

Sim, o sistema prisional foi criado para vigiar e punir os corpos dissidentes, principalmente os que são como eu, NEGRA. Entretanto, apenas as denúncias, textões e vídeos sobre a homofobia e a transfobia não são suficientes para enfrentar e trazer JUSTIÇA frente aos que nos SILENCIAM E MATAM, simbólica e fisicamente.

Na real, sem normas e motivos para punir, O ESTADO NÃO AGE!

#ÉCRIMESIM

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O CORAÇÃO DE QUELLY



Esta é a QUELLY DA SILVA, 35 anos.
Nesta segunda-feira, 21 de janeiro, ela teve o seu CORAÇÃO ARRANCADO.
QUELLY era uma TRAVESTI, ou MULHER TRANS. Morava há três anos em Valinhos (SP), com o companheiro, e trabalhava no bar da família dele, em Campinas.
O assassino, Caio Santos de Oliveira, encontrou-a sozinha no estabelecimento, na noite do crime. Segundo vizinhos do comércio, ele "estava rondando o bairro falando que precisava matar alguém para não morrer". Ele abriu o tórax de QUELLY e guardou o seu  CORAÇÃO enrolado em um tecido, debaixo de um armário. Sobre o corpo, deixou a imagem de uma santa, e ao ser encontrado e interrogado pela polícia, disse que a matou porque ela seria "o demônio".
O caso foi registrado na 2ª Delegacia Seccional de Campinas como latrocínio (roubo seguido de morte).
A maioria dos meios de comunicação não informou o nome de QUELLY. Desrespeitando a forma como ela se apresentava, expôs o seu nome civil; não informou sua profissão ou idade; apenas a identificou pela sua identidade de gênero.
Eu tive dificuldades para encontrar os dados mais básicos sobre ela. O que evidencia a pouca ou nenhuma importância dada à memória de QUELLY.
Esse foi mais um caso letal de TRANSFOBIA. Explícito, no caso do assassino. E a maneira como tem sido abordado, tanto pela mídia quanto pelas autoridades, exemplifica bem como funcionam as instituições neste que é o país que mais registra assassinatos de TRAVESTIS e MULHERES TRANS: o FEMINICÍDIO TRANS é naturalizado em nossa sociedade, em grau tão elevado que, ao afirmá-lo aqui, haverá quem o negue, considere que exagero ou que não veja feminicídio no EXTERMÍNIO BRUTAL DESSAS MULHERES.
Essas pessoas ainda acham que há mulheres "de verdade", em comparação com aquelas que seriam "menos mulheres", até tidas como "farsas". Se você pensou assim, se você se importuna ou acha engraçado que pessoas trans tenham vidas plenas, que sejam amadas, acha que nossos sentimentos são menos reais e importantes, entenda que a sua #TransfobiaMata, pense que #VidasTransImportam, e JOGUE A SUA TRANSFOBIA FORA.
Meus sinceros sentimentos aos familiares e amigos de QUELLY DA SILVA.
#visibilidadetrans #BastadeTransfobia

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A Masculinidade Tradicional Prejudica Homens e Garotos

Foto: Mario Tama/Getty Images

Novas orientações da Associação Americana de Psicologia (APA) apontam que A MASCULINIDADE TRADICIONAL PREJUDICA HOMENS E GAROTOS.

Essa produção científico-profissional é inédita, porque os homens - particularmente os brancos, cisgêneros e heterossexuais - sempre foram tratados como a norma de humanidade, e não como sujeitos culturalmente construídos, que apresentam alguns valores em comum, decorrentes da sua formação pessoal de acordo com uma ideologia, e não de uma falaciosa natureza masculina, quais sejam: anti-feminilidade, realização,  evitação da aparência de fraqueza, adesão a aventura, risco e violência.

Essa masculinidade tradicional é perniciosa mesmo para os indivíduos que gozam dos privilégios da sociedade machista, tanto para a saúde física quanto para a mental de homens e meninos.

Identificam-se maiores taxas de suicídio, problemas cardiovasculares e solidão entre homens mais velhos. Isso se relaciona à sua dificuldade, estimulada desde a infância, em expressarem seus sentimentos e formar relacionamentos profundos.

Homens que endossam os papéis estereotipados de gênero tendem a expressar medo de ter intimidade e desconforto por gostarem fisicamente de outros homens; e quando casados com mulheres, vivenciam relações conjugais associadas à depressão em suas esposas, conflitos intra-familiares e dificuldades com o cuidado parental.

As inseguranças vividas por garotos, submetidos a normas masculimas sexistas e patriarcais para se identificarem como homens, relacionam-se ao maior uso de poder e controle nos relacionamentos quando adultos, expressando-se em violência e abuso sexual "justificadas" contra parceiras íntimas; tendência a transar com muitas pessoas, sem proteção, cuidado consigo ou com a(o) outra(o); percepção de mulheres trans e travestis como "fingidoras", "falsas" que "só se vestem" e de homens trans como não sendo homens "de verdade", o que leva à agressão verbal, física e às altas taxas de crimes de ódio fatais contra as mulheres trans e travestis.

Você pode acessar as orientações (em inglês) por este link: https://www.apa.org/about/policy/boys-men-practice-guidelines.pdf

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Não é sobre Cores, é sobre Vidas!


NÃO É SOBRE CORES, É SOBRE VIDAS!

O desabafo entusiasmado da Ministra Damares sobre "a nova Era" que estaria começando no Brasil, na qual "menino veste azul e menina veste rosa", demonstra, primeiramente, como reage o pernicioso apartheid de gênero (ideologia que rege a nossa educação, das famílias às escolas), quando confrontado com a diversidade de existências, pensamentos e sentimentos que ele não consegue abarcar, dentro de seus modelos limitados sobre o que podem homens e mulheres.

Porém o discurso vai além. Tem alvos diretos aos quais ele não dá nomes (nomear também é reconhecer a existência, e isso não é desejável para quem odeia aqueles que preferia que não existissem). A metáfora das cores é o silêncio sobre as vidas trans, ao mesmo tempo em que nega frontalmente a nossa existência!

É de sexismo e de transfobia que se está dizendo, o medo - iníquo, tosco, mas poderoso porque representa o pensamento dominante - de que meninos e meninas estariam "confusos" porque adultos (professores, outro grupo considerado prejudicial pela ideologia no poder) lhes dizem que eles não são meninos e meninas. Uma fantasia adotada pelos que se horrorizam quando se lhes aponta que as crianças, quaisquer crianças, conformam-se aos estereótipos de gênero estabelecidos pelos adultos, e não que elas nasçam com esta ou aquela "identidade biológica" (um conceito bizarro, pseudocientífico, para tentar florear o senso comum de que o sexo biológico determina o gênero e o comportamento das pessoas). Sem uma única palavra sobre as pessoas trans, sobre homens e mulheres trans e travestis, é do ódio contra essa população que se fala, com um sorriso nos lábios. Esse sentimento expressa, no fundo, a preferência de que a transgeneridade não existisse, quiçá fosse exterminada. Faz sentido, no país em que mais se registram assassinatos de pessoas trans no mundo, sendo que mais de 90% das vítimas são as travestis e mulheres trans, o que configura um feminicídio ignorado solenemente, porque a identidade de gênero dessas mulheres não é reconhecida, dado que sequer são vistas como gente.

As vidas trans importam! E elas também incluem crianças e idosos. Precisamos protegê-las!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

BATE-PAPO COM A JAQUE


25 de julho, quarta-feira, às 18 horas
Sede do PT - Rua 7 de Setembro, 164, Centro - Rio de Janeiro/RJ
Evento no Facebook: http://bit.ly/2A11zJr (transmissão ao vivo)

25 de julho é o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e também dia de bater um papo com a professora Jaqueline Gomes de Jesus!

Pré-candidata a Deputada Estadual, Jaqueline é mulher negra e a primeira trans pré-candidata pelo Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro a uma vaga na ALERJ.

Jaque é professora na Baixada Fluminense, pesquisadora, psicóloga, comprometida com os direitos humanos e a luta contra o racismo, o machismo, as LGBTIfobias e quaisquer outras intolerâncias. Ela quer construir um mandato coletivo a serviço da justiça, da educação pública, dos direitos das mulheres, da igualdade e da efetiva valorização da diversidade!

Reconhecendo sua trajetória única, a vereadora Marielle Franco lhe concedeu a Medalha Chiquinha Gonzaga em 2017.

Quer fazer a diferença nestas eleições? Vem com a gente no bonde!!!
#TocomJaque

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Shélida Ayana (1996-2018)

 
Shélida Ayana foi uma menina genial, que acabou de falecer. Muito doído viver perdas assim, de pessoas que, para além de serem queridas, somam-se a nós para mover o mundo a um lugar melhor!

Professora, guerreira, menina, mulher negra e trans, como eu, com quem pude compartilhar afetos e ideias, bandeiras, lutas, mesas sobre transfeminismo negro, realizado pela Maria Clara Araújo na Casa Nem, e despatologização, que organizei no meu campus do Instituto Federal do Rio de Janeiro, em Belford Roxo - na Baixada Fluminense, onde Shélida morava e lecionava, na Educação Infantil.


Tive a honra de lhe ministrar uma aula e desenvolver atividades no curso de formação política Transformação, coordenado por Alessandra Ramos Makkeda na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Em dezembro, ela conquistou uma grande vitória: a retificação do seu nome nos documentos de registro civil: não era mais Shélida só de fato, mas também de direito!


Recentemente ela aceitou, com alegria, ser coordenadora de educação da minha pré-campanha...


Seguimos a caminhada sem essa força viva que ela trazia, e que nos animava... Guardemos sua memória e nos tornemos mais conscientes com os ensinamentos dela! Em mente, coração e espírito!


Meus sentimentos aos familiares e demais amigos.
Obrigada por ter brilhado neste mundo conosco!


Axé, maninha Shélida!


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Eu Sou Uma Sobrevivente

Eu sou uma sobrevivente de epistemicídios que transforma a revolta em perguntas e respostas. Acadêmicas, sim, mas não necessariamente academicistas. Vivas, sobretudo!