Quando eu fui à Duke University (EUA) ano passado, como pesquisadora-visitante, para analisar os dados da pesquisa global sobre saúde mental de minorias sexuais e de gênero em 6 países que desenvolvemos juntos, recebi da universidade um plano de saúde.
Em um determinado momento da minha estadia tive uma reação alérgica. Fui levada por uma amiga ao posto de saúde da universidade (uma ambulância poderia me levar, mas mesmo TENDO plano de saúde, ela custaria uns MIL dólares).
Chegando no posto, mesmo ele sendo da universidade, não era público, então a consulta tinha de ser paga de antemão. Para mim que tinha plano de saúde, houve um desconto, e "só" paguei 120 dólares (no câmbio da época deu quase 500 reais), só para ser olhada pela médica e receber receituário, sem o qual eu não poderia comprar uma simples dipirona em uma farmácia.
Andando pelas ruas de diferentes cidades, como Atlanta, Durham, Washington D.C. e Nova Iorque, eu vi pessoas em condições super precárias de saúde, algumas desfiguradas. Algumas eram inclusive militares, porém muitas doenças e condições não são cobertas pelo atendimento em saúde das Forças de lá.
Isso é um exemplo de como é uma sociedade sem acesso a saúde universal, mesmo tendo acesso a trabalho remunerado maior que aqui.
Agora, imagine o que aconteceria no Brasil sem o SUS.
Precisamos defender o nosso SUS!
Profa. Jaqueline Gomes de Jesus
Instituto Federal do Rio de Janeiro
Lugar para percepções, ideias e análises a partir de uma visão pessoal, científica e profissional: uma janela, da minha perspectiva, para o mundo. ~o~ Place for perceptions, ideas and analysis from a personal, scientific and professional view: a window, from my perspective, to the world.
domingo, 15 de março de 2020
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Dia dos Namorados fora do Brasil 😁
Hoje NÃO é Dia dos Namorados no Brasil, mas É em outros países influenciados pelo Cristianismo! Por quê? 🤔
Então. No Brasil, a razão é unicamente COMERCIAL. rsrsrs Comemora-se em 12 de junho desde 1949, por sugestão do publicitário João Dória, pai do atual governador de São Paulo, por ser véspera do Dia de Santo Antônio, o casamenteiro, e isso estimular a troca de 🎁!
Em outros países, como EUA, Inglaterra, França, Portugal e Angola, obviamente que há a veia consumista, constante nos tempos em que vivemos, porém se comemora no Dia de São Valentim (14 de fevereiro) pela tradição desse mártir, que antes de ser executado, por ordem do imperador romano Marco Aurélio Valério Cláudio (Cláudio II), ter se apaixonado pela filha cega de um de seus carcereiros, devolvido-lhe a visão e escrito uma carta de adeus, assinando como seu enamorado, ou seu Valentim. 🤗
NA VERDADE, como praticamente tudo que envolve cultura, essa não é a história original! kkkk Os cristãos copiaram os romanos, que comemoravam, em 14 de fevereiro, a festa da fertilidade, LUPERCÁLIA, na véspera do início da Primavera no Hemisfério Norte, referente a um episódio da mitologia, em que o Deus Pã tomou a forma da loba (lupus) que amamentou os gêmeos Rômulo e Remo. Ambos cresceram, Rômulo matou o irmão e fundou Roma. 🤗
Então, resumindo muito, é isso aí. É legal comemoramos o amor, de qualquer maneira, porém acho relevante conhecer o significado disso tudo que chegou até nós da forma como chegou, mas que a maioria não sabe o porquê. Quem leu esta minha postagem agora sabe. 😘
Feliz #valentineday #valentinesday2020 #amor #cultura #mitologia #sãovalentim
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Homenagem a João W. Nery
Em dezembro de 2019, durante uma banca de Doutorado em Psicologia na UFRJ sobre identidades trans, eu propus que nosso saudoso amigo, o psicólogo e escritor João W. Nery, falecido em 26 de outubro de 2018, recebesse uma homenagem póstuma pela nossa categoria profissional.
Pois bem, acatando essa ideia, o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro confeccionou uma carteira profissional que será entregue à viúva, nossa querida Sheila Salewski, nesta quarta-feira, 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, às 15 horas!
Parabéns ao CRP-RJ por ter escutado, especialmente aos maravilhosos Pedro Paulo Bicalho e Céu Cavalcanti, trans-formando a ideia em uma política institucional, que engrandece a Psicologia como ciência-profissão socialmente responsável!
O CRP-RJ fica na Rua Teófilo Otoni, 93, no Centro do Rio.
Infelizmente não poderei estar presente, devido a outro compromisso previamente agendado fora do Rio, porém gravei um vídeo que será exibido durante a cerimônia, no qual falo sobre memória trans e reparação simbólica. O meu coração estará com vocês que se fizerem presentes!
#joaownery #psicologia #compromissosocial #memória #reparação #trans #homemtrans #visibilidadetrans #crprj
domingo, 19 de janeiro de 2020
Pobres vendendo órgãos?
Mesmo a imbecilidade tem diferentes níveis.
Quando ela se associa à insensibilidade, é vendida (e comprada por muitos, como um discurso razoável.
O neoliberalismo tem disso: desconsidera a complexidade da vida, em nome da opressão econômica disfarçada de "liberdade de opinião", pensamento "progressista" ou "empreendedor", degradando modos de existir que não alimentam falácias meritocráticas sobre a natureza e formas de sobreviver no capitalismo, e se torna advogada da morte.
Um exemplo é a ideia perversa, de uns liberaizinhos por aí, de que seria "vantajoso" pobres venderem seus órgãos.
A noção de "empreendedor de si mesmo", vivida cotidianamente no mundo cada vez mais "uberizado", alcança aí o seu nível mais explicitamente grotesco!
Quando ela se associa à insensibilidade, é vendida (e comprada por muitos, como um discurso razoável.
O neoliberalismo tem disso: desconsidera a complexidade da vida, em nome da opressão econômica disfarçada de "liberdade de opinião", pensamento "progressista" ou "empreendedor", degradando modos de existir que não alimentam falácias meritocráticas sobre a natureza e formas de sobreviver no capitalismo, e se torna advogada da morte.
Um exemplo é a ideia perversa, de uns liberaizinhos por aí, de que seria "vantajoso" pobres venderem seus órgãos.
A noção de "empreendedor de si mesmo", vivida cotidianamente no mundo cada vez mais "uberizado", alcança aí o seu nível mais explicitamente grotesco!
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Psicopatologia, Psiquiatrização, Preconceito
A série The Crown, da Netflix, sobre a Monarquia Britânica, apresenta no quarto episódio da terceira personagem a Princesa Alice, mãe do Príncipe Philip, marido da Rainha Elizabeth II.
Entre muitos aspectos que me chamaram a atenção, um em especial me tocou. Resolvi pesquisar a respeito, confirmando a sua veracidade e gravidade.
Após ter sido diagnosticada com esquizofrenia paranóide nos anos 30 do século XX, foi internada em um sanatório na Suíça, para ser tratada por Sigmund Freud.
Freud acreditava que os delírios de Alice eram causados por frustração sexual. Como tratamento para "curar" a sua "histeria", ele a submeteu a tratamento por eletrochoque e raios X nos seus ovários, para induzi-la a uma menopausa precoce.
A triste estória da Princesa Alice é, lamentavelmente, uma pequeniníssima amostra dos sofrimentos inflingidos pela lógica patologizante a grupos historicamente discriminados, neste caso, às mulheres, que até hoje são rotuladas como "histéricas" pelo senso comum/psicologia popular machista/sexista.
Pode ser difícil, mas tente imaginar o que enfrentaram os MILHÕES de mulheres cisgêneras, pessoas negras, LGBTIs e de outras populações oprimidas institucionalizadas compulsoriamente em hospícios ou outros espaços totais de "reforma/reeducação" mental, como o famoso hospital colônia de Barbacena, categorizadas em determinados quadros psicopatológicos (nosologia), geralmente com base em preconceitos reproduzidos pelo pensamento científico hegemônico.
Logo após a abolição da escravatura no Brasil, era comum pessoas negras sem trabalho serem presas por "vadiagem"; mulheres negras eram psiquiatrizadas e internadas. O mesmo acontecia com mulheres brancas que eram mães solteiras, mas cujas famílias não as aceitavam. Homossexuais, travestis e pessoas intersexo eram fotografados nus para estudo clínico, e neles se injetavam substâncias para aplacar-lhes o desejo sexual, além do conhecido eletrochoque.
Sim, MILHÕES. Multidões submetidas a tratamentos aviltantes, para além do aprisionamento em si. Muitas vezes passando fome e sede, tendo de beber a própria urina. Morrendo logo e tendo seus corpos vendidos para variadas finalidades, entre elas para estudos de anatomia por parte de médicos. Não se pode esquecer dos casos de lobotomia.
O que antes era visto como pecado foi transformado em crime. E quando deixou de ser crime, foi rotulado como doença...
Ainda hoje lutamos para que identidades e formas de ser no mundo deixem de ser patologizadas. Quem é patologizado deixa de ser visto plenamente como pessoa, e que acredita nisto tende a tutelar, querer controlar o corpo da pessoa, decidir por ela, dizer quem ela é, onde ela pode estar, taxando-a como perigosa, desconsiderando sua autonomia e sua presunção de inocência: especialmente pessoas negras ou trans são pré-julgadas como perigosas/agressivas em potencial, de tal modo que sua mera presença em espaços de uso comum é, por quem as discrimina, tida como um risco. Os casos de expulsão de mulheres trans/travestis de banheiros femininos é um exemplo de como essa lógica excludente está naturalizada no pensamento social.
Atualmente, quando se lê criticamente códigos como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, sabe-se que até a infância está sendo psicopatologizada e medicalizada, dentro dos interesses da indústria farmacêutica, quando se reconhecem os abusos ocorridos no diagnóstico de crianças como hiperativas.
Não se esqueçam disso. Também não se omitam quando se depararem com essas situações fundamentalmente cruéis.
#saúdemental #patologização #despatologização #reformapsiquiátrica
Este texto também está disponível em http://m.facebook.com/story.php?story_fbid=3343742459030789&id=962002183871507
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Esquenta! do Festival Mulheres do Mundo
Esquenta! do Festival Mulheres do Mundo: estarei neste sábado, às 10h30, no Museu Ciência e Vida, em Duque de Caxias, debatendo sobre como o machismo e o sexismo se refletem no mercado de trabalho, prejudicando o acesso pleno e a permanência das mulheres, em especial no que se refere à ascensão profissional!
#mulheresdomundo #trabalho #machismo #sexismo #tetodevidro #mercadodetrabalho
segunda-feira, 8 de julho de 2019
Bolsonaro compara Brasil a "virgem que todo tarado quer" / Bolsonaro compares Brazil to "virgin that all pervert wants"
O presidente de extrema-direita Bolsonaro acrescentou mais uma frase deplorável ao seu conhecido repertório sexista e misógino: “O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer. Desculpe aqui as mulheres”.
A sua necessidade, essa fixação - ou quase limitação - em fazer uso de metáforas de cunho sexual (sejam elas simplórias, como comparar alianças comerciais com namoros ou casamentos, ou chulas, como a listada acima), para se referir a fatos da ordem política, mais do que indicar uma dificuldade cognitiva, inclusive anterior à aquisição de informações qualificadas sobre um monte de assuntos; mais do que expressar uma visão retrógrada e discriminatória do grupo fundamentalista que ele representa; sugere um trauma, algo no nível do afetivo que o prende a alguma experiência deletéria, relativa a gênero e sexualidade, que ele não conseguiu elaborar, e a adotou como parte de si, ao mesmo tempo em que tenta expulsá-la, como um miasma, sobre a sociedade brasileira.
Para além das elucubrações sobre o indivíduo autoritário, o fundamental é compreender para enfrentar o dano que ele provoca no pensamento social com todo o seu ódio assentado na presidência da República.
*
The far-right president Bolsonaro added another deplorable phrase to his well-known sexist and misogynist repertoire: "Brazil is a virgin that every pervert wants. Sorry for the women here".
His need, this fixation - or almost limitation - on making use of sexual metaphors (be they simplistic, like comparing commercial alliances with dating or marriage, or dirty, as the one listed above), to refer to facts of the political order, rather than indicating a cognitive dificulty, even prior to acquiring qualified information on a lot of subjects; rather than expressing a retrograde and discriminatory view of the fundamentalist group he represents; suggests a trauma, something on the level of the affective that binds him to some deleterious experience, relative to gender and sexuality, which he could not elaborate, and adopted it as part of himself, at the same time as he tries to expel it as a miasma, on the Brazilian society.
In addition to the elucubrations about the authoritarian individual, the key is understanding, to face, the damage he causes in social thinking with all his hatred set in the presidency of the Republic.
http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/07/brasil-e-virgem-que-todo-tarado-de-fora-quer-diz-bolsonaro-sobre-amazonia.shtml
A sua necessidade, essa fixação - ou quase limitação - em fazer uso de metáforas de cunho sexual (sejam elas simplórias, como comparar alianças comerciais com namoros ou casamentos, ou chulas, como a listada acima), para se referir a fatos da ordem política, mais do que indicar uma dificuldade cognitiva, inclusive anterior à aquisição de informações qualificadas sobre um monte de assuntos; mais do que expressar uma visão retrógrada e discriminatória do grupo fundamentalista que ele representa; sugere um trauma, algo no nível do afetivo que o prende a alguma experiência deletéria, relativa a gênero e sexualidade, que ele não conseguiu elaborar, e a adotou como parte de si, ao mesmo tempo em que tenta expulsá-la, como um miasma, sobre a sociedade brasileira.
Para além das elucubrações sobre o indivíduo autoritário, o fundamental é compreender para enfrentar o dano que ele provoca no pensamento social com todo o seu ódio assentado na presidência da República.
*
The far-right president Bolsonaro added another deplorable phrase to his well-known sexist and misogynist repertoire: "Brazil is a virgin that every pervert wants. Sorry for the women here".
His need, this fixation - or almost limitation - on making use of sexual metaphors (be they simplistic, like comparing commercial alliances with dating or marriage, or dirty, as the one listed above), to refer to facts of the political order, rather than indicating a cognitive dificulty, even prior to acquiring qualified information on a lot of subjects; rather than expressing a retrograde and discriminatory view of the fundamentalist group he represents; suggests a trauma, something on the level of the affective that binds him to some deleterious experience, relative to gender and sexuality, which he could not elaborate, and adopted it as part of himself, at the same time as he tries to expel it as a miasma, on the Brazilian society.
In addition to the elucubrations about the authoritarian individual, the key is understanding, to face, the damage he causes in social thinking with all his hatred set in the presidency of the Republic.
http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/07/brasil-e-virgem-que-todo-tarado-de-fora-quer-diz-bolsonaro-sobre-amazonia.shtml
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