domingo, 26 de fevereiro de 2012

Abandono e Acolhimento em um Hospital de Brasília

Como o coração humano pode ser sombrio e cruel... Chorei quando li...
Saiu no Correio Braziliense de hoje, 26/02/2012:
Filha adotiva de moradora do Lago Sul, mulher está internada há mais de três décadas no Hospital de Base do DF por conta de complicações no parto. Desde então, nunca recebeu a visita do marido e do filho, apesar de estar apta a se tratar em casa
O tempo, implacável, correu enquanto Karen Margareth de Oliveira não viu passar quase 33 anos de sua vida presa a um leito. Nesse período, ela não viu o filho. Nem o marido. Muito menos a cidade ao redor do edifício de 12 andares que se tornou a sua casa. Ou o sol e o céu encantadores de Brasília. Dentro da enfermaria 506, no sétimo pavimento do Hospital de Base do Distrito Federal, os dias parecem durar mais para essa mulher, diante de uma existência ignorada.
Os cabelos de Karen, antes castanhos-escuros, ganharam fios brancos. A pele se transformou em um mapa em que os traços são marcas da vida. A juventude foi embora sem se despedir. Recentemente, ela completou meio século de vida, sem a companhia de um familiar, o carinho do marido ou do filho, com quem conviveu apenas no primeiro ano da criança.
De pele clara e com 1,65m de altura, Karen recebe cuidados especiais da equipe do maior hospital público de Brasília, na ala da ginecologia, onde mora desde o início da internação, em estado semivegetativo. Ela pode ouvir, mas não enxerga. Reage com ruídos quando alguém lhe dirige a palavra. Parece reconhecer, pelo som da voz, os amigos mais íntimos: médicos, enfermeiros e assistentes sociais com os quais passou a conviver, sem ter escolha.
Em coma
O mundo de Karen se limita às paredes brancas da maior unidade de saúde da capital da República, onde deu entrada aos 19 anos, após complicações no nascimento do primeiro e único filho. Ela conviveu com o recém-nascido por poucos meses.
A separação teve início justamente após o parto, uma cesariana malfeita em um hospital particular de Brasília.
Por causa das fortes dores, familiares de Karen a transferiram para o Hospital de Base do DF sete dias após o procedimento. Ela deu entrada no centro clínico com um quadro de peritonite, a inflamação do peritônio, membrana que envolve os órgãos contidos na cavidade abdominal. A situação piorou e, na tarde de 7 de abril de 1979, ela teve de entrar novamente em uma sala cirúrgica para a retirada do útero.
No período de recuperação, feita no Hospital de Base do DF, os médicos detectaram uma fístula intestinal, uma comunicação anormal entre os órgãos. Karen precisou passar por nova intervenção para o fechamento da fístula, em 15 de outubro de 1979. Passado o efeito da anestesia, ela sofreu uma parada cardiorrespiratória e entrou em coma após a falta de oxigenação no cérebro.
Diante do quadro da paciente, um familiar, supostamente o pai do bebê, apareceu e o levou. Karen acabou na unidade de tratamento intensivo (UTI), onde permaneceu por mais de um mês. Nesse período, sob efeitos de sedativos, seus dias passaram em branco. Quando os médicos consideraram ter diminuído o risco de morte, eles mandaram levá-la à área de ginecologia e obstetrícia e, em seguida, ao quinto andar, onde funciona a ginecologia.
Depois de todo esse sofrimento e de tantas cirurgias, a moça sofreu atrofia nos membros inferiores e superiores, perdeu os movimentos e acabou impossibilitada de falar. Passou apenas a observar os movimentos de quem entrava e saía com frequência de seu quarto no hospital.
Abandono
Nas três décadas de internação, Karen de Oliveira não recebeu muitas visitas, nem flores, nem sequer uma carta, nem mesmo uma curta mensagem. Sabe-se apenas que a mulher era filha adotiva de uma família de classe média. A mãe morreu em 2008. Ela era a única que vez ou outra aparecia para ver Karen. Teria deixado herança significativa, incluindo uma casa no Lago Sul.
Familiares entraram na Justiça pedindo que o hospital público se responsabilizasse por Karen, direito que lhes foi concedido. Os bens dela passaram a ser administrados por um tutor, escolhido perante a lei. Mas ele jamais se interessou em levá-la para casa. Nem sequer procurou saber o estado de saúde da parente.
O pai do filho de Karen era um auxiliar de serviços gerais e mudou-se de Brasília para o Mato Grosso, com o bebê, segundo informações de antigos funcionários do serviço social do Hospital de Base do DF. Depois disso, há relatos de que o pai, com ajuda da família adotiva de Karen, tenha deixado o país, mudando-se para os Estados Unidos, onde estaria morando atualmente. Ninguém revela o nome do filho do casal.
O processo sobre o caso de Karen corre em segredo de Justiça. Por essa razão, os médicos responsáveis pela paciente se recusam a informar quem é o tutor. Limitam-se a dizer que ele se negou várias vezes a dar entrevistas e ameaçou processar a equipe do hospital se divulgassem qualquer detalhe. Por isso, todos pedem para ter a identidade preservada. O Correio teve autorização para ir ao andar da paciente e conversar com alguns profissionais, mas não pôde registrar imagens.
Acolhimento
Karen respira sem aparelhos. Come com ajuda de alguém, sem a necessidade de sonda. Precisa de colchão especial e de cuidados para evitar feridas na pele. Usa fraldas. Mas poderia estar em casa, de acordo com médicos. Vive no hospital apenas por causa do abandono da família. A equipe de profissionais de saúde e voluntários tenta preencher vazios. Cerca a paciente de cuidados e de carinhos.
Todo ano, em setembro, eles comemoram o aniversário dela. Fazem festa, enfeitam o quarto com balões e cantam parabéns. Zelam também pela aparência daquela que ganhou status de amiga. Pintam os cabelos da hoje senhora, cortam as suas unhas e cuidam das sobrancelhas. Karen se transformou em uma lenda no Hospital de Base do DF.
Outros pacientes acabam por saber da existência dela e pedem para conhecê-la. Alguns, após tratar-se ali, voltam só para visitá-la. “A história da Karen é muito comovente. Ela chegou com uma complicação de parto e nunca mais foi embora.
O mais triste é que ninguém jamais quis saber dela”, lamentou um dos médicos.
O prontuário de Karen tem centenas de páginas, acumuladas ao longo dos anos. No início, ela não falava, nem se movimentava. Hoje, consegue emitir sons incompreensíveis. Grita e abre os olhos. Mas não vê com clareza. Vive na escuridão. Suas condições mentais talvez não permitam lembranças do filho. O olhar triste, perdido em algum lugar dentro dela mesma, não permite desvendá-la. Cercada de mistérios, ela completará, daqui a seis meses, mais um ano da vida que não pôde viver.
Sem conexão
Na medicina, uma fístula é um canal patológico que cria uma comunicação entre duas vísceras ou entre uma víscera e a pele. Geralmente, é uma condição da doença, mas ela pode ser criada cirurgicamente por razões terapêuticas. Pode se desenvolver em várias partes do corpo.
Problemas
Um dos principais fatores para a complicação por anestesia é a falta de preparo pré-operatório, em que o responsável pela cirurgia deveria ajudar e preparar física e emocionalmente quem está prestes a passar pelo procedimento. A incidência desse tipo de complicação na população é de 0,2% a 0,4%. Ela é grave e tem grandes possibilidades de sequelas psicológicas e físicas.
Para saber mais
Do tamanho de um município
Se fosse uma cidade, o Hospital de Base do DF seria maior que um quarto dos municípios brasileiros, em população. Inaugurada em 12 de setembro de 1960, a unidade de saúde tem 12 andares e 52 mil metros quadrados de área construída. São 3,5 mil servidores. A cada ano, são realizados mais de 600 mil atendimentos apenas no pronto-socorro e no ambulatório. Servem-se 107.732 refeições todos os dias. Os médicos fazem em torno de 12 mil cirurgias por ano. No prédio, há 833 leitos e 200 banheiros. Quase 6 mil quilos de lençóis, roupas e toalhas são lavados diariamente. Dos 14 elevadores, quatro não estão em funcionamento. Só com a conta de luz são gastos mais de R$ 211 mil por mês. O gasto com água consome R$ 281 mil, e com telefone, R$ 24 mil. Pelo menos 250 voluntários atuam no local. A cada ano, 1,8 mil pessoas morrem no Hospital de Base do DF.
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