domingo, 2 de junho de 2013

Hoje é Dia de Parada, Para Quem?

É lamentável o rumo homogeneizante que os discursos sobre as Paradas do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e demais pessoas Trans (LGBT) têm tomado. Os seus exemplos máximos são a divulgação e as falas na mídia e nas redes virtuais sobre a Parada paulistana, guiadas pela regressão ao uso exclusivo do termo "Gay" para representar toda a diversidade de orientações sexuais e de identidades de gênero dos LGBT. Digo "regressão" porque isso era comum há décadas, quando não eram conhecidas as diferentes questões de gênero e a diversidade sexual dentro desse movimento social.
Restringindo-se a tal caminho, as Paradas brasileiras poderão perder o sentido político-identitário que as fundamentaram e ainda as orienta. Ora, ao contrário do que afirma o senso comum, a pauta das Paradas não é apenas de e para homens homossexuais, nem sequer se resume a questões de pessoas homossexuais.
O uso da carnavalização (ritmo festivo) como recurso para agregação de público foi muito bem sucedido, a meu ver. Quanto à mercantilização das Paradas, ela decorre da sua inserção na conjuntura sócio-econômica em que vivemos, assim, a associação do chamado "pink money" com a repercussão dos eventos nos diferentes meios de comunicação é inevitável, ou melhor, desejável pelos organizadores e patrocinadores, tanto quanto seria com qualquer outra iniciativa ideológica voltada a um público (incluídos aí eventos como a Marcha Para Jesus e a Copa do Mundo).
Entendo que as Paradas, como protestos festivos, festas políticas ou f(r)estas, usando aqui termos de vários/as pensadores/as sobre esse evento, acertaram em suas estratégias de visibilidade massiva, porém precisam se precaver do risco de invisibilização interna a esse grupo político-identitário complexo, formado historicamente, invisibilidade que afeta, principalmente, Lésbicas, Bissexuais e a população Trans.
Não é por acaso que os debates e as matérias jornalísticas sobre a Parada que ocorre hoje em São Paulo, tradicionalmente intitulada como a maior do mundo, abusem dos termos "gay", "homossexual", "homofobia", "hétero", "armário", "drag queen" e seus plurais, como se eles abrangessem a realidade de qualquer pessoa dita LGBT, a qual não existe fora do discurso político-identitário.
É fácil generalizar os LGBT como uma população unificada, quando se esquece que esse é um grupo constituído politicamente, para fins de construção identitária e de direitos. De fato, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e demais pessoas Trans vivem realidades e demandas próprias, que não se resumem à pauta própria dos homens homossexuais (isso se torna mais amplo quando lembramos das questões das pessoas Intersexuais e das Assexuais, ainda pouquíssimo divulgadas no Brasil), e não podem ser representados visualmente apenas pessoas de um único grupo de gênero (homens), sexual (homossexuais) ou etnicorracial (brancos), como tem sido redundante nas imagens sobre essa população (pessoalmente compreendo que não existe uma "população" LGBT, mas, isso sim, movimentos sociais LGBT, essa reflexão, entretanto, merece um texto próprio para ser explanada com a profundidade que merece).
Como contraponto à simplificação do significado das Paradas LGBT e à homogeneização da população LGBT nas grandes mídias e nos discursos oficiais, é notável que as marchas e os debates alternativos, além do ativismo online de Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e demais pessoas trans, têm reiterado a necessidade de se tornar visível a diversidade sexual, etnicorracial e de gênero dentro da dita população LGBT.
Posso afirmar que o que há de mais contemporâneo e atualizado na temática sobre as políticas sociais por e para LGBT - como o feminismo lésbico, o transfeminismo e as questões etnicorraciais - está excluído do roteiro cultural das Paradas. Só aparece ocasionalmente, nas raras mesas sobre a população transgênero, negritude ou lesbianidade que são colocadas, geralmente "em cima da hora", nas programações de alguns dos eventos, tornando-se índices da ausência/inexistência da discussão no dia-a-dia do movimentos sociais LGBT (aparecem como exceção à regra do seu não-reconhecimento como necessários na pauta política central de LGBT).
Em nosso país, cada vez mais globalizado, não se une um grupo social sem que seja respeitada a pluralidade identitária interna àqueles que se pretende unir. Creio que essa valorização das particularidades dos/as chamados/as LGBT seja o desafio mais premente para os organizadores e os divulgadores das Paradas do Orgulho, sob pena de se tornarem, tão-somente, porta-vozes de marcas, e não de necessidades de pessoas reais.

6 comentários:

  1. Ótimo texto! Concordo com tudo o que disse, tanto que este ano me recusei a participar da Parada. Ontem fui à Caminhada de Lésbicas e Bissexuais e o clima é outro: nada carnavalesco, totalmente engajado e sempre com os direitos dos LGBT em pauta. Durante a marcha, que foi linda e muito bem organizada, faziam sempre questão de destacar que aquilo não era uma festa: porque realmente não era! É ativismo, é ato de rua.
    Acredito que essa visibilidade maior que o homem homossexual tem dentro e fora da comunidade LGBT decorra do machismo, dessa falsa ideia de que as mulheres lésbicas e bissexuais só ficam com outras mulheres porque ainda não encontraram - desculpe a expressão, mas preciso usá-la - o "pau de ouro". E as pessoas travestis, transexuais, transgêneras, intersexuais etc são ainda vistas como estranhas, promiscuas e doentes, mesmo dentro do movimento. Isso é triste.
    Repito sua pergunta: Parada para quem?

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Profunda essa sua reflexão, eu acho que a contribuição de Aurora joga algumas luzes na questão, quando ela afirma que mesmo dentro do movimento LGBT existe um preconceito contra os travestis, transexuais, transgêneras, intersexuais etc. Será porque esses estrato não tem o apelo comercial que o público gay e agora as lésbicas têm ? Eu acho que na sociedade capitalista tudo se mercantiliza, é a velha solução do mercado. Será que o movimento tem força para impor a sua pauta para além do mercado? Isso falando em repercussão na mídia.

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  4. É por isso, Aurora e Valter, que eu acredito na necessidade do debate "às margens" da lógica capitalista. A inclusão ocorre até certo ponto, a partir do qual "quem está no poder" já não permite um aprofundamento de ocupações, basta vermos a exclusão estrutural da população negra dos espaços de poder neste país. Doses homeopáticas de visibilidade ajudam mas mas resolvem. Somente a mobilização social dentro e fora das instituições transformará a situação que aí está.

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  5. Jaqueline, como sempre, o teu texto está impecável, perfeito no conjunto das orações e na formulação de uma ideia. Sou teu fã!

    Heterossexual, confesso que assusta-me ver a imensa quantidade de "Paradas" que temos atualmente; esse desejo de segregar, como se o objetivo fosse o contrário, pois notadamente o que termina por ocorrer é a segregação.

    De uma hora para outra, negros tornaram-se chatos; homossexuais também, e aqueles que jamais pensaram em preconceito ou separação por etnia ou gênero, mais ainda.

    Será que é tão difícil para o ser humano respeitar e ser respeitado, sem exigir coisa alguma?

    Será que uma pessoa de valor precisa pautar-se nos mesmos critérios de vida que o meu, ou eu no dela?

    Temo muito medo da mobilização social, quando o foco é a chamada minoria, que nem é tão pequena, pois, como já afirmei, isso separa, distancia cada vez mais, com uma finalização do tipo; "Então, tá bom!", e as relações acabam por ficar no campo da diplomacia, sem maiores aproximações, já que qualquer tipo de comentário, pode ser considerado como agulhada.

    Na minha família, temos por costume beijar a mão e o rosto dos tios, primos e irmãos, estejamos aonde estivermos, e se o encontro é na rua, o que não falta hoje são os olhares condenatórios. (rs)
    Se durmo na casa de um primo que é solteiro, certamente não há de faltar a dúvida nos vizinhos, se somos ou não "viados"... (rs)

    Penso que mais do que luta por uma aceitação que nem sempre é verdadeira, seria necessário a busca pelo retorno do respeito e a compreensão de que cada um tem o direito de viver à sua maneira, independente da cor da sua pele ou do tipo de prazer que sente com a pessoa do mesmo sexo. O fundamental na vida, é o respeito, e poucos sentem o desejo de fazer uma "Parada", pelo menos, para refletir sobre isso.

    Ler você é muito gostoso!

    Beijos,

    Gê!®

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    1. Gê, muito obrigada pelos elogios e reflexões!

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